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Primos de Portugal.

Atualizado: Mai 6

A primeira vez, não sei: foi uns 10 anos antes da Nina nascer.

Tinha a Mari e a Nanda, pequeninas, mas nada de Théo tampouco.

Então fomos Karin e eu apenas.

A gente costumava esticar a ida anual ao Festival de Cannes, paga pela agência, passeando por outras paragens, sempre em longuíssimas viagens de carro.

Minha mãe, descendente de pai e mãe portugueses, sempre contava as histórias que ouvira do meu avô José, sobre os menos de 15 anos que vivera por lá, antes de vir - para nunca mais voltar - para o Brasil.

As histórias daquela pequena aldeia de nome tão peculiar e tão, como eu posso dizer?, português, aguçavam a minha curiosidade e levavam a minha imaginação à Parada do Bispo, suas manhãs frias, a neve fina, a ida à escola em Lamego ou ao povoado do Peso da Régua, uma saudade de história não vivida tão grande que, desde criança, eu queria estar lá.

Quis o destino que fosse mais tarde, dirigindo o Renault Chamade de placa francesa alugado à própria Renault (ficava muito mais barato e era 0km) e um ou dois anos depois que a minha mãe havia ido com meu pai pela primeira vez.

Mas, como sempre, não planejei com qualquer antecedência.

Nossas viagens eram assim: carro na rua - direita ou esquerda? - no máximo o mapa na mão (viva o waze: além de prático, poupou alguns "você não disse pra virar", "claro que disse; estou dizendo há cinco minutos") às vezes no café da manhã, outras já horas rodando na estrada, que decidíamos onde iríamos parar para jantar e dormir.

No telefone público, livrinho de hotéis na mão, fazíamos a sondagem para ver qual nos aceitava àquela hora e para apenas uma noite - quase nunca mais que isso.

Saibam os menos destemidos que muitos anos antes do Booking ou da TripAdvisor, nós já percebíamos que quanto mais em cima da hora, mais desconto ganha na diária.

Mas esse não era o assunto.

De volta a ele, o fato é que de algum hotel pelo sul de Portugal liguei para a minha mãe em busca das coordenadas para chegarmos à Quinta de Santa Eufêmia, lugar em que nascera meu avô e onde, ainda então, meus primos de sei lá que grau moravam e continuavam a tradição familiar de produzir o vinho do Porto com o nome da quinta.

Foi assim que peguei o telefone do primo Bernardo, o mais velho deles, que morava no Porto e me ensinou a chegar ao sítio, garantindo que, apesar de não poder ir ter conosco, Alzira, a mais nova dos sete irmãos, estaria lá para nos receber.

No dia seguinte Karin e eu chegávamos à porta de um imenso casarão, desses que viram ilustração em rótulo de vinho, muito parecido com aquele em que meu avô nascera, que eu conhecia dos relatos da minha mãe e por onde minha imaginação já vagara tantas vezes, levada pelas as histórias detalhadas que ela contava, usando também a dela.

Como estivesse em obras para grandes reformas, ninguém vivia ali agora e a prima Alzira, a única que vivia por ali àquela altura, estava provisoriamente na casa do Lagar - onde se pisam as uvas, para quem não sabe.

Zirinha acabara de nascer e junto com a mãe, homônima, e João Paulo, o pai, estava entre os primos que primeiro tivemos a alegria de conhecer.

Na casa improvisada no Lagar, de onde pendiam do teto alguns embutidos e cuja história quase se contava sozinha, nas paredes de pedras antigas e nas portas de madeira maciça e ferrolhos pesados, em 15 minutos nós éramos íntimos como que com 30 anos de amizade.

Provavelmente também já estávamos 30 quilos mais gordos também.

Visitamos toda a produção do vinho, os barris, a rotulagem artesanal, o entorno, o casarão em reforma e, no seu porão, onde Alzira contou que, no passado, repousavam muitos barris de vinho, cujo aroma penetrava as frestas do assoalho antigo e embalava as noites de sono das crianças no andar de cima e assim vimos o dia voar.

Como começasse a se anunciar a noite ainda que tardia dos horários de verão, decidimos nos despedir para tomarmos a estrada e melhor podermos cuidar do hotel que nos acudiria, feliz, por não ficarem com um quarto encalhado aquela noite.

Riram-se os primos.

Não havia a menor chance de nos deixarem ir.

Não bastasse já terem decidido o que iríamos jantar, também já tinham planejado tudo o que faríamos pelos próximos dias na região.

Negociamos o tempo e acertamos que ficaríamos apenas mais um dia.

E assim dormimos numa cama apertada contra a parede, num dos calores mais infernais que já passei à noite na minha vida e acompanhado por um mosquito que, tenho certeza, chegou a me abraçar por boa parte da noite.

Passaria outras dezenas de noite por lá, mesmo assim.

Fomos embora no dia seguinte, apenas porque achamos que era muito incômodo para o casal com Zirinha, recém nascida, tendo que se preocupar também com visitas inesperadas.

No dia seguinte ainda estivemos com Vítor, outro dos primos, que também insistiu que deveríamos ficar mais, mas acabamos por deixá-los nos dando adeus pelo retrovisor.

Já se passaram 30 anos e, após um pequeno intervalo seguido à nossa primeira visita, passamos a ver os primos com regularidade, seja na Quinta, seja por aqui no Brasil, como fizeram por alguns anos quando estiveram vindo em duplas para a Feira Anual do Vinho, no Anhembi.

Nina e Theo têm, cada um, uma árvore plantada por eles na Quinta.

Uma laranjeira e uma oliveira.

Os filhos dos primos, pequenos como eram Mariana e Fernanda e outros ainda menores naquela época, hoje são grandes, alguns casados, alguns com filhos de colo.

Há muitos anos, quando começamos a ir lá, especialmente em natais e revéillons, criamos uma tradição, esquisita para eles, ao levar um leitão inteiro para a noite de Natal, sempre após nossa obrigatória parada na Mealhada, onde eu almoço ou janto pelo menos umas 3 vezes cada vez que vou e volto por aquela estrada quando estou em Portugal.

"Não se come caça em 24 de Dezembro", dizem Tereza, Rosário e Minda, outras três primas queridas.

Mas Miguel, mais um dos primos de quem tanto gostamos, Jorge, João Paulo e Bernardo, maridos de primas e primo, o nosso primeiro contato, não se importam: e cortam as costelas e as coxas para servir o prato que virou senha para a nossa ida para lá, já que todo ano, por volta de Outubro ou Novembro, Alzira e Minda nos mandam um email cujo título invariavelmente é "Então, vamos ter leitão este ano?".

E assim forjamos essa amizade bonita, que desce para todas as gerações de primos, todos descendentes daqueles mesmos tataravós, que tiveram nossas bisavós, irmãs portanto, depois nossos avôs, que eram primos, minha mãe e o pai deles, primos de segundo grau, finalmente.

Do lado deles, uma sucessão de Bernardos.

Só de Bernardinho dava para treinar uns 5 times de vôlei em Portugal.

Até hoje quando estamos por lá degustando uma alheira com um vinho do Porto (uma garrafa com um blend de 150 anos está na minha adega esperando um pretexto para ser aberta) volta e meio eu digo para eles: "e pensar que anos atrás, um belo dia eu apareci aqui contando uma história esfarrapada de que eu sou primo desses otários. Nenhum deles checou nada e até hoje a gente come, dorme e bebe de graça.

E cada vez ainda traz mais filhos com a gente para aproveitar a mordomia".

Eles riem e dizem que valeria a pena, mesmo que a gente não fosse primo de verdade.

Hoje eu lembrei disso e fiquei com saudades desses primos de verdade.




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