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Quanto custa um brasileiro?

Há algumas semanas, escrevi um post sobre o fato da covid19 nos Estados Unidos ter superado o número de fatalidades do atentado de 11 de setembro. Naquele dia, os EUA registraram um total de 3.100 mortes acumuladas, 123 a mais do que os 2.977 que morreram quando as torres gêmeas desabaram.

Naqueles dias, pouco mais de um mês atrás, era difícil imaginar o que ainda estava por vir.

O país mais poderoso do mundo perder mais vidas do que perdeu no mais grave atentado terrorista da Historia já era um dado assustador.

Afinal, custa caro fabricar um americano.

Custa comida, saneamento e educação de qualidade.

Custa muito criar e manter uma rede de proteção financeira em torno do americano médio.

Custa muito construir os sonhos e expectativas dos quarterbacks, das cheer leaders, do time de spellbee, da Ivy League.

Então, quando um americano morre, ao menos para os próprios americanos, é um enorme desperdício.

É muito mais grave do que quando ouvimos dizer que morreu muita gente em Manaus.

Afinal, Manaus já tinha um monte de problemas antes do coronavírus.

Sofremos, é evidente.

Nós, brasileiros, talvez sejamos até mais sensíveis, mais humanos, mais emotivos do que outras Culturas.

Mas, mesmo inconscientemente, sabemos que custa pouco para fazer um brasileiro.

Sua morte, por isso, é triste, mas não representa uma perda financeira significativa.

A ponto do presidente deixar escapar o seu já antológico “E daí?”.

Aqui não calculamos o quanto a morte custa, porque a vida foi gerada a preço de banana, tamanho o abandono do nosso Estado com o povo que o mantém.

Aqui a gente sente a morte alheia no coração.

Nos EUA sentem no coração e no bolso.

Essa semana, com mais de 63 mil fatalidades, a covid19, nos EUA, superou os 58 mil americanos mortos em 9 anos de guerra do Vietnã.

O vírus precisou de apenas 6 meses.

Imagine o prejuízo.

Pense quanto custou produzir esses 60 mil.

Já por aqui, 60 mil são uma bobagem.

Se fosse grave já teríamos tomado alguma atitude para impedir a morte dos 60 mil assassinados todos os anos, não é mesmo?

E se 60 mil mortes não são um número grave, os 6 mil que morreram até agora são insignificantes.

Pelo menos para o nosso presidente, tão íntimo da morte.

Um homem para quem a morte, como disse em campanha, é “sua especialidade, e não a economia”.

Imagine como essas 6 mil mortes são pouco importantes para um presidente que certa vez afirmou que a ditadura deveria ter “fuzilado uns 30 mil, a começar pelo Fernando Henrique”.

Ou para um homem que “prefere que um filho morra num acidente de carro a aparecer com um bigodudo”.

A morte não é assunto grave para nosso presidente.

E essa desimportância é o que justifica sua retórica e de seus comparsas familiares.

Suspeito que seja assim que pensa uma enorme parcela da população brasileira para quem vida é commodity.

Com 13 milhões de desempregados, quem morrer será rapidamente substituído.

E daí?

Um monte de velhinhos vão morrer? Melhor.

Desafoga a previdência.

O que não podemos é permitir que nossa pujante economia seja abalada por esse factóide.

É certo que nossos registros oficiais não expressam o real número de mortes causadas pelo vírus.

Especialistas acreditam que o número real é entre 5 e 10 vezes maior.

Não muda nada para aqueles que acreditam que recessão e pandemia se equivalem em gravidade.

Se não forem 6 mil e sim 60 mil, só resta uma coisa a dizer:

E daí?



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