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Reinventando a coisa toda

Atualizado: Jun 17

O Juvênio trabalhava na guilhotina de uma gráfica. Fechou. Se vai reabrir? Já tava difícil. A filha se deu bem. Juvênio mandou bem na guilhotina a vida toda. Não tem três dedos mas faz até mágica de baralho sem eles. A filha fez faculdade, casou com outra moça. Você não me enche o saco com o cigarro e com a bebida que eu não te encho o saco por conta dessa uma. Não fala assim, Juvênio, pedia a esposa Lenilce. Não saiam de casa, vocês dois! Eu passo aí e deixo tudo. Não esquece o cigarro. O senhor podia aproveitar e largar de fumar. Você podia aproveitar e trocar a tua sapatona por um homem. Mas que porra é essa que falam o dia inteirinho? Fodeu tudo? Não fala assim, Juvênio. Pai, acho que você precisa pensar que o mundo vai mudar. Você ainda é jovem, tem 50 anos. Dá pra fazer muita coisa. Juvênio ficou olhando seus 7 dedos. Lembrou do Toninho que dobra folha de flandres na metalúrgica do seu Massaro, que também fechou. Ligou pro Dorival que tava sem serviço desde 2015 e tinha se reinventado, vendendo café da manhã num ponto de ônibus em Interlagos. Fodeu, Juvênio. Você é amigo então eu posso falar: eu vou me matar. Faça isso, Dorival. Faça isso. Eu só não faço porque não tenho colhões. Mas se eu posso te pedir uma gentileza? Espera passar essa merda. Eu queria muito dar um beijo na tua testa fria no caixão. Riram e seguiram vivos. Rosa, a filha, continuou dando ideias. Juvênio passou a gostar de assistir a vídeos de balé clássico. E por que não um cisne velho? Tossia rindo, bebendo e fumando.

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