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Reseñas do Cañadas #2


O Sol na Cabeça, de Geovani Martins*


Se você, estimado leitor, pensa que nessa coluna encontrará apenas lançamentos, saiba que não vai. Ao menos não lançamentos de 2020. Haverá aqui sempre, pois, grandes novidades fresquinhas dos séculos VI a.C. em diante.

Mas se a obra de hoje não é exatamente recentíssima, é ainda assim bastante nova.


“O sol na cabeça” foi a estreia na literatura, há dois anos, de Geovani Martins, um garoto nascido nas favelas de Bangu há 29 anos. Trata-se de uma série de treze contos que, se não são autobiográficos, são evidentemente inspirados em sua infância e adolescência pobres e violentas e cheias da mais genuína carioquice, no seu melhor sentido.

É possível que um leitor incauto desista do livro no primeiro parágrafo de “Rolézim”, o conto de abertura, ao se deparar com “não dava nem mais pra ver as infiltração na sala, tava tudo seco. Só ficou as mancha: a santa, a pistola e o dinossauro”. Embora seja esse o tipo de texto surpreendente capaz de atrair meu interesse de forma imediata, é certo que muita gente pode eventualmente se assustar.


Mas nos contos seguintes é que se percebe com firmeza o domínio do autor sobre o seu próprio estilo e, mais do que isso, sobre as diferentes técnicas narrativas que emprega com perfeição. Escreveu João Moreira Salles a respeito: “Geovani pula da oralidade mais rasgada para o português canônico como quem respira. Uma nova língua brasileira chega à literatura com força inédita.”


Não é exagero.

Embora a temática quase uniforme de todos os contos seja o conjunto de agruras e delícias de um morador de favela, o livro está longe de ser o que alguns críticos chamam de literatura de favela. Não há ativismos professorais ou discursos óbvios sobre a desigualdade social ou o racismo – é claro que esses temas são tratados, mas de forma natural, sem clichês ou pieguices.


Na verdade o pequeno grande livro de Giovani é literatura da boa, inovadora na forma e bem arquitetada no conteúdo e no suspense das tramas.


Para quem duvida, um trecho de “A Viagem”:


“Porque essa época sempre nos ataca como o fim do mundo. E o fim do mundo ou nos dá vontade de viver a vida até que tudo exploda e depois venha a calma do vazio ou nos deixa decepcionados por saber que terminaremos incompletos. É por isso que em dezembro devemos ser fortes.”

Percebem que o garoto sabe e mostra a que veio?


Os contos de O Sol na Cabeça chamam a atenção, por fim, justamente para a humanidade das personagens em meio a um cenário marcado pelo desumano.


Para quem gosta do gênero e está a fim de novidade, um livraço.


* Na Amazon está por R$ 24,90.

O livro foi publicado pela Companhia das Letras em 2018 e possui 112 páginas

Nota do Cañadas: 4/5.

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