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Reseñas do Cañadas #3


Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski*

Eis um bom exemplo daqueles grandes livros que você lê depois de velho e sente vergonha por estar lendo-o só depois de velho.

Claro que já tinha ouvido falar bem – e muito – de Memórias do Subsolo, mas o fato de já ter lido os “carros-chefe” de Dostoiévski, todos de maior extensão e fama (i.e., Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazóv e O Idiota), fizeram-me estupidamente achar que essa seria uma obra menor e que poderia esperar.

Amigos, eu estava completamente enganado.

Bastaram os dez primeiros minutos para que eu me desse conta de estar diante de um dos livros mais impactantes da minha vida, a ponto de tê-lo devorado em um só fôlego, em realmente poucas horas (minha edição tem 147 páginas) e imediatamente após começar nova leitura, dessa vez fazendo anotações e deglutindo algumas passagens com mais vagar.

Aliás, para quem tem o hábito de grifar trechos marcantes (como eu quase sempre faço), corre-se o risco de sublinhar o livro todo.

Alguns trechos recolhidos a esmo, apenas para que tenham ideia do que estou falando:

“Vou dizer-vos solenemente que, muitas vezes, quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui digno. Juro-vos, senhores, que uma consciência muito perspicaz é uma doença, uma doença autêntica, completa”.

“Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é ‘belo e sublime’, tanto mais me afundava em meu lodo e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo”.

”Remordia-me então em segredo, dilacerava-me, rasgava-me e sugava-me, até que o amargor se transformasse, finalmente, em certa doçura vil, maldita e, depois, num prazer sério, decisivo!”

Mas vamos lá, no que consiste exatamente essa coisa maravilhosa?

Escrita pelo autor russo em 1864, nos meses em que velou sua esposa no leito de morte, a obra é dividida em duas partes: a) a primeira delas um monólogo escrito em 11 pequenos capítulos, contendo divagações ao mesmo tempo engraçadíssimas, profundas e universais acerca da psique do homem, cujo pano de fundo é a personalidade marcante do narrador, um morador de São Petersburgo de quarenta e poucos anos de idade, solteiro e atordoado por sua inteligência acima da média e ao mesmo tempo inconformado com a adaptabilidade humana às idiotices do cotidiano; e b) a segunda uma série de três episódios, em que o mesmo narrador relata experiências aflitivas como o plano arquitetado em detalhes para desforrar uma trombada que tomara de alguém na rua, o porre vexaminoso que toma em um jantar para o qual se convidou e a paixão que nutre por uma prostituta a quem entrega sua alma nas primeiras horas de papo – e só de papo.

O autor emprega o chamado “fluxo de consciência” de uma forma bastante diferente da que se vê em outros mestres do gênero, como William Faulkner ou – para citarmos um brasileiro igualmente craque no estilo – Raduan Nassar. Dostoiévski usa normalmente pontuações e