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Reseñas do Cañadas #6


Fascismo à Brasileira: como o integralismo, maior movimento de extrema-direita da história do país, se formou e o que ele ilumina sobre o bolsonarismo, de Pedro Doria*

Quando convidado para uma de nossas primeiras lives, o autor contou a esta revista impostora que estava concluindo seu novo livro e nos disse em primeira mão que só não o havia lançado ainda porque se sentira obrigado a fazer algumas breves reflexões entre o objeto de seu estudo e o governo atual.


Assim, apesar do subtítulo mencionar essas reflexões, fica muito claro ao leitor que se trata na verdade de uma – densa e profunda – obra sobre a ação integralista brasileira, o movimento declaradamente inspirado no fascismo, que por muito pouco não chegou a tomar o Brasil naquela sombria década de 1930. Ao bolsonarismo, é dedicado apenas uma espécie de epílogo.


Mas embora a análise comparativa entre o integralismo e o movimento de direita que hoje nos assola não ser objeto do trabalho de Doria, é impressionante constatar como alguns dos elementos essenciais daquele está presente neste: a religiosidade, o fortalecimento do Estado, o nacionalismo e, sobretudo, a figura do combate ao inimigo mortal de ambos, o comunismo.


Confesso que conhecia muito pouco do integralismo, não muito mais do que aprendi na escola: sabia do fascínio de Plínio Salgado pelo fascismo italiano, de sua grande cultura e da tentativa frustrada de golpe. Mais nada.


Assim, foi chocante, para mim, compreender a dimensão que o movimento chegou a tomar em todo o país – e especialmente imaginar a dimensão que ele poderia ter tomado. Assim como foi surpreendente saber que Plínio chegou a conhecer Mussolini pessoalmente, que Miguel Reale foi um de seus principais intelectuais e que o movimento participou não só do golpe militar comandado por Getúlio, mas também da própria elaboração da Constituição de 1937 e de toda concepção do Estado Novo.


O grande trunfo do novo livro de Pedro Doria é trazer uma quantidade enorme de informações de uma forma ao mesmo tempo leve e profunda: as descrições minuciosas de cenários como o gabinete de Il Duce quando Plínio o conheceu ou do Palácio Guanabara na noite do ataque da AIB (que culminou com o fim da própria organização) transportam o leitor para dentro da história, dando-nos a certeza de que o próprio autor – ou ao menos alguém que lhe era muito próximo – narrou-lhe em detalhes tudo o que acontecia.


Estamos diante do bom jornalismo travestido de livro de história, com corretas doses de bom-humor e relativa isenção. Enfim, um primor.


Leitura essencial para a compreensão do nosso passado e, consequentemente, do nosso presente. E, especialmente, para se saber exatamente a carga semântica que o atualmente tão desgastado termo “fascista” carrega.


*Comprei na Travessa por R$ 44,12.

Foi editado pela Planeta em 2020 e tem 264 páginas

Nota do Cañadas: 4/5

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