Buscar

Retratos de uma manhã de domingo em São Paulo.

Atualizado: Ago 5

O sujeito saiu para correr logo cedo, num bairro muito arborizado de São Paulo, ali, perto do Jockey.

É um bairro onde, fora travestis, têm muito pouco pedestre, já que não tem muito comércio de rua.

Mas o sujeito decidiu correr de máscara.

Fico imaginando a dificuldade que deve ser absorver o ar, correndo, com um pedaço de pano tapando a boca e o nariz.

Está certo que é lei.

Mas precisa mesmo máscara nesse caso?

Não dá para levar no bolso e só na eventualidade de alguém se aproximar, ou dele precisar parar para falar com alguém, colocá-la?

Ou será que o sujeito realmente acredita que existem coronavírus por aí, flutuando no ar?

Interrogação.

Eu não usaria máscara nessa situação.

Mas não sou um bom exemplo, porque não desligo o celular quando o avião vai decolar.


...


Paro para comprar carne no DeBetti.

No estacionamento que ficou famoso na época que o Ilha das Flores lotava, uma Ferrari está estacionada.

Eu devo ter uma reação inconsciente de inveja de quem tem Ferrari, porque toda vez que vejo uma, fico irritado.

Lembro do meu ex-sócio, Calainho, que uma vez falando sobre a diferença entre cariocas e paulistas, garantiu:

”No Rio, ter uma Ferrari é dar atestado de babaca. Em São Paulo é chic.“

Minha possível inveja não me deixa achar chic ter uma Ferrari em São Paulo. As ruas cheias de lombada, trânsito e buracos devem deixar o carro muito triste por jamais conseguir acelerar mais de 200 metros.

Essa Ferrari ainda por cima é azul.

A culpa não é do dono.

Não digam que ele tem mau gosto.

A culpa é da Ferrari, de não ter o bom senso de apenas fabricarem carros vermelhos.

Essa, coitada, estava duplamente humilhada.

Primeiro por acabar seus dias em São Paulo.

Segundo por ser azul.

Quando passei por ela, se desculpou.

Respondi “Imagine, a culpa não é sua”.

E segui em frente.


...


Uma mulher passeia de bicicleta com o filho, que deve ter uns quatro anos.

A bicicleta tem um daqueles troninhos hiperseguros atrás.

Lembrei do medo que eu sentia quando meu pai me levava para andar de bicicleta sentado no bagageiro da sua bicicleta de 30 anos.

Lembrei disso porque a criança não estava na cadeirinha.

Estava nos ombros da mãe que além de estar desenvolvendo uma hérnia de disco, pode facilmente matar a pobre criança caso se arrebente no chão.

Deve ser a mulher do cara da Ferrari.

Ou do que saiu para correr de máscara.



128 visualizações7 comentários

©2020 by Os Impostores