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São João, caramurus e a guerra dos balões.

Atualizado: Jun 25

No século passado as festas juninas eram festas.

Fazia frio. Garagens eram improvisadas para a venda de fogos Caramuru, desde a inocente estrelinha até os caramurus de 3 tiros, bombinhas, bombonas, buscapés, girassol. Improvisar era tirar a vareta do buscapé que virava diabinho maluco a correr em todas as direções até morrer por falta de pólvora.

Diversões ingênuas como colocar uma lata sobre a bombinha e vê-la jogada pelos ares e rolar pelos paralelepípedos conformada com a sua sorte, pois era São João.

Mas o ponto alto era o balão. A começar pela sua construção. Batatinha, amigo de meu pai, era especialista. Ele chegava em casa com os papéis de seda coloridos dos brancos aos amarelados dos amarelados aos vermelhos e azuis e verdes. Manobrava a tesoura como um cirurgião manobra um bisturi. Com paciência e competência cortava, media, fechava um olho para ser mais preciso, voltava a cortar a medir a fechar um olho.

Chegava a hora de colar e a goma arábica, mais leve que a cola de farinha de trigo, escorria rápida pelos cantos, dobra com dobra, gomos e o balão tomando forma de 8 ,16 folhas, colorido, grandioso.

O arame fino quase sem peso fazia a boca e o grande pedaço de estopa era dobrado e dobrado para criar a mecha que mais tarde seria embebida. Na hora de soltar cada garoto repuxa um gomo para as laterais ficarem longe da mecha que começa a arder e prenhar o balão com fumaça que o levará para o alto até ser um pontinho luminoso a se confundir com as estrelas.

Tempo de festa mas também de batalhas.. As turmas formam-se para pegar os balões que caem pelo bairro. Territórios são delimitados. Há a turma da Pires da Motta, do Botelho, da Baturité, da Machado de Assis, da Mazzini, do córrego da Jurubatuba.

Um balão começa a cair e as turmas deslocam-se rapidamente em corridas organizadas.. As armas são pedras e pedaços de pau porque há sempre o perigo de invadir o território inimigo.

Algumas cabeças são quebradas, xingamentos trocados, mas o troféu era o balão, às vezes com buracos feitos na hora de amansar a mecha e exibido por caras sorridentes pretas de fuligem a caminhar orgulhosamente na noite gelada.

Até hoje guardo uma pequena cicatriz no tornozelo que ganhei ao subir numa árvore para alcançar um balão vermelho e branco que começava a queimar.

Não cheguei a tempo de evitar o fogaréu que lambeu o frágil papel de seda e fez cinza de suas cores. Mas ganhei a cicatriz exibida como símbolo de coragem da turma da Pires da Motta. Não é pouco.


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