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Sanatório geral

Atualizado: Out 22


As pessoas estão loucas. Tantãs. Ma-lu-cas. Não sei se é uma pandemia mundial, só posso relatar o que se passa no bairro e adjacências. Perdemos todos a razão, qualquer traço de sensatez, demos para rosnar, arriar as sobrancelhas, afiar as unhas, e o mais grave é que o estoque de camisas de força parece insuficiente.

Pode ter algo a ver com o desaparecimento dos ioiôs, hare krishnas e canjas de galinha (nem os hospitais servem mais). Também não ajudou essa mania de construir pedágio ou de se empolgar nas tatuagens. É só um palpite, também não ando lá essas coisas.

Fato é que as pessoas deram para preferir sushi de frutas a frango ao molho pardo. Incenso de patchuli a perfume de manga madura. Os moleques preferem jogos no celular a um escanteio bem batido no campinho do bairro. E essa coisa de Trump, Brexit e ultranacionalismos, pel’amor. Mas não vamos falar de política, que ainda não inventaram tema mais enlouquecedor.

Como temos essa mania de nos meter na vida dos bichos, acabamos contaminando os pobres. Papagaios e cacatuas imitam histéricos pastores evangélicos que ouvem no rádio, tendo ao fundo o rugido da alcateia de motos que entra pela janela. A araponga, coitada, estava fadada à loucura: quem podia suportar aquele martelo na cabeça a vida inteira?

Os vaga-lumes endoideceram e sumiram. Não é preciso ser psiquiatra para diagnosticar a causa: esse negócio de bunda que pisca não podia dar certo. Onde andarão? Decerto reunidos num grande Woodstock num canto do mundo, acendendo e apagando no show de sua banda favorita, como fazem os estranhos humanos, antes com isqueiros, hoje com telas de celulares.

As ovelhas piraram de vez, tendo que andar com aquele casaco de lã nesse calor. Não podem ver um carro ou uma vendedora da Avon que já dão uma carreira. Os touros deram para fazer as pazes com a cor vermelha. E as borboletas, que agora alugam suas asas como mídia para publicidade?

E as pessoas, gente de Deus? Dar ignição no carro aciona sei lá que mecanismo que transforma a pessoa num huno em combate. Nas repartições e caixas, muitos desenvolveram uma doença nos olhos que os incapacitam de enxergar o próximo, agem como se o outro não existisse. Torcedores matam a pauladas um sujeito que cometeu o absurdo, a heresia, o crime de torcer para outro time. E a maioria achou graça no funk e beleza nas calças skinnie.

A lista, ai de nós, é imensa. Lavo minhas mãos: nada posso fazer para ajudar na cura de meu semelhante. Se bem que, pensando bem, não fazer nada ajuda bastante. Você aí, prestes a pisar no acelerador, aplicar botox ou sair em passeata a defender o indefensável, desista. Faça nada, não. Pause o mundo até passar esse vírus, praga ou peste.

Vai testar rede, afofar almofada, lustrar gota, jogar truco com monge, aprender com as vacas, decorar enciclopédia, adestrar pernilongo, encher pastel de ar, conter um vento, ler a biografia de Napoleão em vez de se julgar Napoleão, prolongar silêncio, imitar sesta de cão, contabilizar pedras, convencer sua sombra, entender gato, afinar em lá bemol a campainha da porta, comparar as ondas, ou pagar seis meses adiantados de sanatório.

Mas nos deixe em paz. Tranquilos, a ler em sossego as postagens sensatíssimas e imprescindíveis de Os Impostores.

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