Buscar

Saudades.

Atualizado: Fev 11


De ficar na Vemaguet bege do meu pai, depois do jantar, quando saíamos em família para percorrer as casas dos pacientes cujos chamados médicos ele tinha que atender.

Do Grapette e do Mineirinho.

Da bala Juquinha e do Frumello.

Do cachorro-quente comprado com ficha na cantina da escola.

Saudades do dia em que, pra ser popular, eu paguei lanche e refrigerante, bala e chiclete pra um monte de meninos a quem eu mal conhecia.

Ao chegar em casa e entregar para a minha mãe o troco para a nota de 5 mil cruzeiros que ela havia me dado para pagar o material mimeografado de todo o ano, eu disse que não entendia porque ela estava zangada, se eu trouxe muito mais notas do que ela tinha me dado.

Saudades dos LPs que eu gravava no 3 em 1 da Sony para ter no cassete que eu ouviria no TDK do Fiat 147.

Saudades da Família Dó-Ré-Mi.

E do David Cassidy, cujo cabelo eu queria porque queria ter igual.

E a voz.

E a cara também.

Saudades dos jogos das Olimpíadas internas no ginásio da escola.

Saudades de ficar na janela paquerando Rosane (nome que o vizinho descobriu pra mim).

Saudades da quentura da primeira dança na festa que a Rosane inventou só para poder me convidar.

Saudades do primeiro beijo na Rosane.

Saudades dos números de telefone de 6 algarismos.

58-5580, era o da minha casa.

38-5910, era o da minha avó, de quem fomos vizinhos quando eu tinha uns 5 anos e meu pai demoliu a casa velhinha em que morávamos, para construir uma nova, onde moram até hoje.

Saudades de poder ir na padaria sozinho aos 10 anos.

Saudades do Vitório, o barbeiro italiano que parava o corte para atender ao telefone e anotar as apostas do jogo do bicho.

Saudades de ganhar no jogo do bicho depois do sonho em que eu, com 15 anos, dirigia um Miúra (saudades do Miúra) e reparava que ele era adesivado como um desses carros de corrida.

Mas quando eu estava dentro do carro, lia 83 e quando saltava do carro lia 38.

Joguei nos dois.

Vitório, experiente, lembrou que Miúra é tipo de touro e que 83 é uma das dezenas do mesmo animal.

Jogou na cabeça e eu ganhei na cabeça.

Saudades de ir ao cinema na Praça Saenz Peña.

O América, o Carioca e o Metro eram os meus preferidos.

E depois o misto quente do Bob's.

O melhor e mais gorduroso do mundo.

Saudades de pizza do Café Palheta: tanto queijo que quando a gente puxava, não parava de desfiar nunca.

Saudades das peladas com golzinho pequeno.

Saudades de jogar futebol descalço; ou com tênis "Tiger", imitação do Asics de vôlei.

Da primeira sensação de tudo que se fazia pela primeira vez: de amar loucamente alguém a tocar guitarra elétrica; de ser campeão no Maracanã a participar de um festival na escola e se apresentar na frente de todo mundo; de voltar pra casa com um uniforme velho emprestado porque sujei as calças no primeiro dia de escola a fazer a primeira viagem em carro de amigo.

Saudades de Paquetá – não essa de hoje, mas a primeira de todas, com as águas cristalinas que deixavam a gente ver a ponta dos dedinhos e os ouriços do mar.

Saudades da gincana em que só faltava uma rede de baliza oficial de futebol e um menino que eu nunca vi na vida me emprestou a que a turma dele tinha acabado de apresentar.

Era do estádio do América, me lembro dessa lenda.

Saudades do primeiro dia de estágio.

Na revista, na empresa pública e na agência de propaganda – que sorte ter sido estagiário tantas vezes.

Da cuba-libre pós moderna, já que pretender Cuba livre já não era do meu tempo.

Do Noites Cariocas, no alto do Pão de Açúcar.

Da Hippopotamus e do Pizza Palace depois da Hippopotamus.

Saudades de poder tudo e acreditar que podia tudo.

De ser eterno, de ser super-humano, de ser imbatível.

Saudades da pré-pandemia.

Saudades do ontem também.

E desta manhã.

Cada coisa conta.

Conte cada coisa.


68 visualizações5 comentários

©2020 by Os Impostores