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Segredo de chef

Atualizado: Mai 12

Em meados da década de oitenta, mochilando pela Europa, queria ganhar um troco para passar uns dias em Ibiza, onde meu amigo, Cidinho, inauguraria a Bum-Bum, a loja de biquínis mais quente de Ipanema.


Meu railpass havia expirado, o barco para as Baleares era caro e as ilhas, caríssimas.


Após uma semana trabalhando na limpeza de dois hoteizinhos chinfrins perto da estação de trem de Barcelona, descolei um bico de cumin em um restaurante. Era um pouco afastado, mas pagava bem.


Certa noite, mesmo gripado, fui improvisado como garçon, cobrindo um rapaz que faltou.


Apesar do 'Tagifor C' que minha zelosa mãe havia colocado na necessaire junto com preservativos - AIDS era a pandemia da época -, coriza e uns pigarros eram inevitáveis, ainda que não assustassem ninguém.


Uma promoção acidental: ao invés de cuidar do borralho e de lavar louça, circular pelo salão e servir a distinta clientela, com quem eu conversava o mínimo necessário, dada a minha total inexperiência.


Casa antiga, andava meio vazia. Um novo cozinheiro se interessou e assumiu o trampo. Só reservas e turno único. O menu, ao contrário da carta de vinhos, era curtíssimo. Tudo bem caro, o que se refletia na gorjeta.


Tudo ia bem até que uma madame empesteou o ambiente com um intragável perfume. Pressenti que iria sofrer uma daquelas crises de espirros em sequência e corri de volta para a cozinha.


Ao desferir o primeiro espirro, a pastilha efervescente foi parar num bowl de creme de abóbora que estava debaixo de uma daquelas lâmpadas infravermelhas.


O chef me passou um esbregue daqueles de afugentar miúra da arena com o rabo entre as pernas. Fui despedido antes do amanhecer.


No dia seguinte, a "Spuma de calabaza" inaugurava a gastronomia molecular de Ferran Adrià e inscrevia o El Bulli no panteão dos grandes restaurantes.

Só soube de meu feito muito depois. O restaurante fechou em 2011. Eu ainda estou por aqui, sem os créditos.


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