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Ser Mãe é Perder

Ser mãe é perder sempre.


É viver uma história de esvair-se aos pouquinhos, lentamente.


É transcorrer um caminho de muitos ganhos, mas em que a perda estará a todo o tempo presente. E pungente.


Perde-se primeiro o chão com a notícia da gravidez.


Em seguida, perde-se a propriedade exclusiva sobre o próprio corpo. Perde-se também o limite da dor, do sono e da lucidez. Perdem-se as lágrimas que brotam com o simples olhar daqueles olhos. Perde-se toda e qualquer prioridade que não sejam aqueles olhos.


Depois perde-se o leite, perde-se a necessidade do cuidado incessante, perde-se o toque das mãos a todo o instante.


Perde-se a paciência às vezes, mas sempre superficialmente. Ao menor pedido de ajuda, esquece-se tudo, porque ser mãe é também perder qualquer resquício de orgulho.


Repentinamente aquela parte do coração que bate fora do seu corpo já não é só sua, é também do mundo: dos professores, dos amigos, de outros amores.


E apesar de toda a dor que essa avalanche de perdas lhe traz, haverá sempre o consolo de que só poderia ser assim.


Ser mão é mais do que aprender a perder. É enamorar-se por esse tipo de perda necessária, compulsória. Chega-se ao paradoxo de desejar a perda, por tanto amor a quem se perde.


É claro que não estou falando da perda total, aquela traduzida na concretização do medo maior de qualquer mãe. Aquela dor que vi nos olhos de minha mãe ao enterrar meu único irmão e que eu não pude evitar. Pelo contrário, a dor que só fiz aumentar, porque apesar de tudo aquilo ela ainda tinha que se fazer forte para mim. Porque até quando ela via seu outro filho escapar-lhe por uma das mãos no leito daquele hospital, com a outra mão ela me segurava, como se dissesse que ainda era a minha mãe.