Buscar

Ser Mãe é Perder

Ser mãe é perder sempre.


É viver uma história de esvair-se aos pouquinhos, lentamente.


É transcorrer um caminho de muitos ganhos, mas em que a perda estará a todo o tempo presente. E pungente.


Perde-se primeiro o chão com a notícia da gravidez.


Em seguida, perde-se a propriedade exclusiva sobre o próprio corpo. Perde-se também o limite da dor, do sono e da lucidez. Perdem-se as lágrimas que brotam com o simples olhar daqueles olhos. Perde-se toda e qualquer prioridade que não sejam aqueles olhos.


Depois perde-se o leite, perde-se a necessidade do cuidado incessante, perde-se o toque das mãos a todo o instante.


Perde-se a paciência às vezes, mas sempre superficialmente. Ao menor pedido de ajuda, esquece-se tudo, porque ser mãe é também perder qualquer resquício de orgulho.


Repentinamente aquela parte do coração que bate fora do seu corpo já não é só sua, é também do mundo: dos professores, dos amigos, de outros amores.


E apesar de toda a dor que essa avalanche de perdas lhe traz, haverá sempre o consolo de que só poderia ser assim.


Ser mão é mais do que aprender a perder. É enamorar-se por esse tipo de perda necessária, compulsória. Chega-se ao paradoxo de desejar a perda, por tanto amor a quem se perde.


É claro que não estou falando da perda total, aquela traduzida na concretização do medo maior de qualquer mãe. Aquela dor que vi nos olhos de minha mãe ao enterrar meu único irmão e que eu não pude evitar. Pelo contrário, a dor que só fiz aumentar, porque apesar de tudo aquilo ela ainda tinha que se fazer forte para mim. Porque até quando ela via seu outro filho escapar-lhe por uma das mãos no leito daquele hospital, com a outra mão ela me segurava, como se dissesse que ainda era a minha mãe.

Não estou falando daquela mesma dor desesperada da minha avó ao suplicar a Deus, com toda a sua fé, que lhe levasse em lugar de seus dois filhos que partiram antes dela. E nem daquele sofrimento inacreditável que presenciei ao ver uma querida amiga se despedindo de sua filha de um ano e pouco de idade.


Não, se eu fosse dono do mundo eu baixaria um decreto impedindo que mãe qualquer no planeta vivesse esse tipo de perda. Já lhes bastam todas as outras perdas esperadas e naturais.


Essas perdas que são ligeiramente compensadas pelo orgulho que só existe no sentir-se feliz pelo sorriso alheio. De realizar-se pelas conquistas de um outro ser. De compreender pelo outro e no outro o motivo de sua própria existência.


É claro que nem tudo são perdas. Com o passar do tempo ganha-se muito, como por exemplo o amor dos netos. Ah, isso sim é um ganho. Porque só quem foi mãe a vida inteirinha terá direito a ganhar um beijo de um neto. O direito a dar o melhor abraço do mundo que é o abraço apertado de uma avó, que vem sempre com um perfume doce e um gosto de colo.


Mas lembrem-se, ser mãe é perder sempre. E o ser avó também não dura eternamente.


Passa-se um pouquinho mais de tempo e perde-se a mobilidade, a agilidade, e por vezes a lucidez.


E ao final, se tudo correr como deve ser, seremos nós, os filhos, que viveremos a pior perda de todas, que será a perda delas.


Só naquele momento nos será dado compreender o porquê dessa sina da perda.


E entenderemos que ser mãe é preparar seus filhos a vida inteirinha para que, ao final, eles

estejam prontos para perdê-la.

87 visualizações6 comentários

©2020 by Os Impostores