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Sobre autocrítica e sanfonas


Vira e mexe me pego perguntando a mim mesmo se Bolsonaro é realmente esse canalha que eu acho que ele é.


Pergunto-me por duas razões principais.


Primeiro porque eu tenho uma mania infernal de desconfiar de minhas certezas e especialmente de meus julgamentos sobre um ser humano qualquer.


Segundo porque eu fico me perguntando como é que pessoas razoáveis, algumas em relação às quais eu sinto até algum tipo de simpatia, não percebem o quão óbvia é essa canalhice.


Pior do que isso, eu fico me questionando como pode alguém relativamente normal não se indignar com tamanha maldade propagada em determinados atos ou fatos advindos daquele ser.


Inevitável lembrar que há pouco tempo eu me via exatamente no mesmo conflito em relação a Lula.


Reputava ser Lula um grandessíssimo canalha não só pelos crimes que pululavam a cada operação lavajatística, mas especialmente pelo sentimento de traição que aquelas revelações emanavam. Lula foi, mais do que canalha, um traidor de minha confiança de outrora.


Indignava-me ver gente ao seu lado após todas aquelas revelações. Especialmente gente por quem eu nutria diversos tipos de admiração. Vai saber se o errado não era eu e existia em Lula alguma virtude maior do que meus parcos olhos podiam ver.


Muito que bem.


Foi justamente refletindo sobre minhas certezas incertas e sobre uma entrevista que eu acabara de ler no Infomoney com o meu guru político-humanitário Fernando Gabeira, em que ele ressaltava a importância de compreendermos o bolsonarismo de uma forma “construtivista”, que passei a me perguntar: será Bolsonaro tão canalha como eu acho que ele é? Ou será ele apenas um reflexo da canalhice humana mal representada num símbolo aleatório ao qual essa pessoa foi exposta?