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Sobre autocrítica e sanfonas


Vira e mexe me pego perguntando a mim mesmo se Bolsonaro é realmente esse canalha que eu acho que ele é.


Pergunto-me por duas razões principais.


Primeiro porque eu tenho uma mania infernal de desconfiar de minhas certezas e especialmente de meus julgamentos sobre um ser humano qualquer.


Segundo porque eu fico me perguntando como é que pessoas razoáveis, algumas em relação às quais eu sinto até algum tipo de simpatia, não percebem o quão óbvia é essa canalhice.


Pior do que isso, eu fico me questionando como pode alguém relativamente normal não se indignar com tamanha maldade propagada em determinados atos ou fatos advindos daquele ser.


Inevitável lembrar que há pouco tempo eu me via exatamente no mesmo conflito em relação a Lula.


Reputava ser Lula um grandessíssimo canalha não só pelos crimes que pululavam a cada operação lavajatística, mas especialmente pelo sentimento de traição que aquelas revelações emanavam. Lula foi, mais do que canalha, um traidor de minha confiança de outrora.


Indignava-me ver gente ao seu lado após todas aquelas revelações. Especialmente gente por quem eu nutria diversos tipos de admiração. Vai saber se o errado não era eu e existia em Lula alguma virtude maior do que meus parcos olhos podiam ver.


Muito que bem.


Foi justamente refletindo sobre minhas certezas incertas e sobre uma entrevista que eu acabara de ler no Infomoney com o meu guru político-humanitário Fernando Gabeira, em que ele ressaltava a importância de compreendermos o bolsonarismo de uma forma “construtivista”, que passei a me perguntar: será Bolsonaro tão canalha como eu acho que ele é? Ou será ele apenas um reflexo da canalhice humana mal representada num símbolo aleatório ao qual essa pessoa foi exposta?


Aí me veio, de brinde, a cena da sanfona levando um xote de Ave Maria, “pelos mortos pelo coronavírus”.


Jair sempre pegou fundo no meu fígado, acima de qualquer outra monstruosidade que manifestou, pela sua falta de empatia ao ser humano.


Quando ele menospreza pretos por serem pretos, gays por serem gays, pobres por serem pobres e mortos por terem morrido, Jair diz a que veio da pior forma possível.


Mas logo eu penso: vai ver não é culpa dele; vai ver ele é só uma consequência de uma cultura secular que sempre quis que fosse assim.


Vai ver, até, essa faceta jairzística é só um mal menor frente aos méritos de termos no poder uma figura que teoricamente nos livrou de alguns dos engodos daquela velha esquerda falida.


E que agora nos permite ver no horizonte um Estado menor, um rompimento com o fisiologismo, uma verdadeira quebra de paradigmas.


Aí vejo um sanfoneiro no cangote de um Paulo Guedes triste, porém resiliente.


Aí vejo um Presidente impaciente após vinte segundos de uma singela homenagem a todas essas vítimas no tocante ao coronavírus que estão mortas aí.


Aí vejo ainda vendas de cargos ao Centrão, a impessoalidade comendo solta e a família e a propriedade próprias mais protegidas do que qualquer outra tradição.


Aí vejo, por fim, que até, vai ver, existe uma empatia pelo próximo, mas na qual nós – eu digo eu, você e mais meia dúzia que entendem o que eu quero dizer – não acreditamos.


Façamos então nossa autocrítica, por fim.


Vai ver Bolsonaro não é tão ruim assim.


Vai ser essa sanfona toca uma música desafinada aos nossos pudicos ouvidos, mas harmônica com a realidade que nos assola.


Vai ver, enfim, somos todos merecedores desse Presidente e dessa sanfona.


Ave Maria...


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