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Sobre Heloisa

Atualizado: 30 de Nov de 2020

Não conheço Heloisa Bolsonaro.

Sei apenas o que foi divulgado na mídia nos últimos dias.

Sei que é psicóloga, o que lhe dá o crédito de ter algum apreço à Ciência.

Por outro lado, é mulher de Eduardo Bolsonaro, o que depõe contra seu bom senso.

Não pelo caráter ou posição política do marido, mas porque todos os Bolsonaros repetidamente negam a Ciência sistematicamente.

Então, sem conhecer Heloisa, de primeira, me chama atenção esse seu convívio com dois extremos. A crença e a negação da Ciência.

Há dois dias, no Instagram - para você que não acompanhou - Heloisa foi questionada por um seguidora:

"... Geórgia [filha do casal] toma/tomou vacinas? O que vc acha do movimento antivacina?"

Heloisa, na resposta, deu voz ao seu lado pró-Ciência (com a infeliz exceção no uso da expressão "retardado" como sinônimo de ignorante, o que não deixa de ser surpreendente para uma psicóloga):

“Geórgia toma e tomará todas as vacinas para cada fase. Não sabia que existia um movimento antivacina, mas agora sabendo, só pode ser coisa de retardado. Depois, quando o filho tiver uma doença, quero ver ele agradecer aos pais por terem poupado ele da dor do 'pic'. Pqp, né? Por essas e outras a gente vê a volta de doenças antes erradicadas”

Horas mais tarde, Heloisa teve que se retratar.

Claro.

Com essa resposta, Heloisa se colocou frontalmente contra a posição do sogro, marido e cunhados.

Contra, também, a posição de Olavo de Carvalho e seus discípulos no governo.

Olavo de Carvalho, em aúdio, afirma categoricamente que as vacinas, em especial a da Rubéola, trazem "agentes esterilizantes". Em outras postagens, afirma que as vacinas têm como consequência dezenas de outros problemas, entre eles a "idiotice" e até a "troca de sexo" do feto.

O movimento antivacinação tem muito de terraplanismo (também apoiado por Olavo de Carvalho, mesmo que com menos veemência).

São movimentos que negam o que não precisa mais ser provado.

Um mínimo conhecimento sobre nosso cotidiano, mostra que negar esses dois fatos, o de que vacinas são efetivas e o de que a Terra é redonda, é um completo absurdo.

Se a Terra fosse plana, o GPS do seu celular simplesmente não funcionaria. As transmissões por satélite seriam falsas e viagens transoceânicas impossíveis. Basta conhecer um mínimo de navegação para entender que nem mesmo voos curtos como São Paulo ao Rio de Janeiro poderiam ser planejados.

Se as vacinas fossem nocivas, viveríamos num mundo onde os casos de Sarampo e Poliomielite já seriam pandemias muito mais graves do que a Covid19, pois estariam presentes há décadas, dizimando milhões.

Mas, sendo Heloisa parte do clã Bolsonaro, foi obrigada a se retratar sobre sua resposta horas mais tarde:

“Errei ao emitir opinião sobre algo que, como disse, não conheço (e detesto opinião à toa). Mas agora, como mãe, eu olho para a minha filha e só penso em protegê-la, de todas as formas. Mas não sei sobre o movimento, seus argumentos. Opinei com base no que já ouvi. Se você possui suas convicções, ignore.

E não é coisa de retardado, me desculpem. São apenas pessoas que pensam diferente, ou possuem informações que eu não possuo. Quando uso retardado não tem nada a ver com pessoas com deficiência intelectual. Aqui o politicamente correto não.”

Heloisa, evidentemente, foi pressionada pela família a corrigir suas afirmações para alinhar-se ao discurso oficial.

Com isso, trouxe de volta o obscurantismo que a primeira família impõe ao país.

Trouxe de volta, também, a enorme ameaça que essa posição antivacina representa.

Porque um sujeito acreditar e divulgar a falácia de que a Terra é plana, não ameaça a vida de ninguém.

Mas afirmar que a eficácia das vacinas é uma questão de "opinião", coloca em risco a vida de milhões de brasileiros.

Tanto aqueles que não vão se vacinar por ignorância, como aqueles que antes de se vacinar, conviverão com os antivacinas.

O movimento antivacina, mais do que ser uma prova de ignorância, tem o potencial de criar bolsões de sobrevivência do coronavírus.

Resta a dúvida: porque Bolsonaro insiste em sua posição antivacinação?

É fácil compreender a posição de Olavo de Carvalho.

Para ele o antiestablishment é um ganha pão.

Criticando o que é lugar comum, consegue um séquito de seguidores que compram seus cursos. Vender teorias da conspiração comprovadamente dá dinheiro e é sua principal fonte de sustento.

E Olavo de Carvalho descobriu isso na prática.

Olavo, para quem não sabe, já foi uma voz importante da intelligenzia brasileira.

Quando o discurso de direita desapareceu na Academia, Olavo de Carvalho trouxe novas vozes e ideias para confrontar a esquerda.

Foi ele quem apresentou pensadores como Max Webber, Leibniz, Roger Scruton.

Mas com o tempo e com a derrota dessa tentativa de dar sobrevida à direita, Olavo despencou para um misto de esoterismo-religioso misturado à astrologia, por simples necessidade de sobrevivência.

E ali ficou, até a ascensão de Bolsonaro e a necessidade de uma ideologia de direita que desse amparo intelectual a um movimento de rejeição à esquerda.

Para Olavo de Carvalho, a antivacinação é ideologia.

Para Bolsonaro, como quase tudo em sua carreira política, é oportunismo.

E a combinação da ideologia de um com oportunismo de outro é a base de boa parte das decisões desse governo nos últimos dois anos.

Olavo de Carvalho é o álibi que Bolsonaro precisa.

Mas porque negar as vacinas se tornou parte da política de Bolsonaro?

Para confrontar a posição de seu potencial adversário em 2022, João Doria?

Também. Mas não só isso.

Quando a Covid19 matou os primeiros brasileiros, a preocupação de Bolsonaro era apenas o impacto na Economia que o isolamento poderia trazer.

Seu governo era apoiado na ideia de que a Economia precisava crescer para provar, de uma vez por todas, como o governo PT foi incompetente.

Por isso o Brasil não podia parar.

Se ainda tivesse essa crença, nada melhor do que a vacina para dar fim a quarentena.

Então o que mudou?

Por que se colocar contra a ideia de vacinar o quanto antes?

Oportunismo, de novo.

Bolsonaro descobriu, ao longo da pandemia, que a ajuda emergencial é seu principal vetor de popularidade.

É só distribuir dinheiro que o ótimo/bom sobe nas pesquisas.

E esse governo - corretamente, é verdade - em poucos meses, distribuiu o equivalente a nove anos de Bolsa Família.

Apesar de ser uma atitude fundamental para permitir o isolamento, esse fato, sozinho, explica o crescimento da popularidade do presidente mesmo enquanto caminhamos para 200 mil mortos.

Assim, ao longo da pandemia, vimos o presidente se afastar de qualquer atitude que pudesse mitigar - e agora neutralizar - o vírus.

Em suas falas, a morte é coisa corriqueira, esperada.

O Brasil não pode parar, mesmo que o contágio seja inevitável.

A vacina, nesse contexto, é um terrível mal, pois ao criar resistência ao vírus, torna desnecessária a ajuda emergencial.

Esse conjunto de coisas talvez ajude a dar a real dimensão da bobagem que Heloisa cometeu ao defender a vacina.

A nora do presidente, sem se dar conta, defendeu o fim do principal artifício que mantém o sogro popular.

Por isso a retratação foi imediata.

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