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Tá com medo, Tabaréu?

Atualizado: Jul 31

Meu último post foi sobre uma viagem a Santana do Acaraú, no Ceará.

Essa viagem durou cerca de um mês e é cheia de histórias.

Aliás, o ano de 1979, pra mim, foi bastante significativo e cheio de histórias.

Mas, como disse no post anterior, éramos adolescentes e levávamos na bagagem apenas máquina fotográfica, livros e pouca roupa.

À noite, havia dois bailes em dois clubes diferentes.

Quando me refiro a clube, no sertão do Estado do Ceará, quero dizer uma quadra esportiva coberta.

Um clube da Arena e outro do MDB. Os dois únicos partidos permitidos na ditadura.

Para entrar nos bailes exigia-se um traje esporte fino, algo como um paletó, um blazer.

Não fui informado disso em nenhum momento pelo meu querido amigo Mima.

Na cidade, não havia nenhuma pessoa do meu tamanho que pudesse emprestar. Até que alguém lembrou: o Padre.

Partimos, então, para a igreja em busca do paletó do Padre.

Não vou descrever a fila de pobres miseráveis que esperavam por um prato de comida na porta lateral da igreja, para não mudar o clima dessa história.

Mas o Brasil é um país para fortes, porque a cena já seria difícil de engolir se estivéssemos numa guerra, que não era o caso.

Bem, o Padre trouxe o maior paletó que ele tinha. Quando experimentei, me senti o Maguila, o Gorila.

Parecia estar vestindo um bolero feminino.

O importante é que, agora, eu tinha o passaporte para aos bailes. Apertado, mas tinha.

Mas, qual dos bailes escolher? MDB ou Arena?

Alternamos dia um, dia outro e assim foi durante algumas noites.

Os hits (no Nordeste) da época eram “Ela deu o Rádio”, do genial Genival Lacerda e “Tá com medo, Tabaréu” ou “Melo da Pipa” que eu não sei de quem é.

No primeiro baile me engracei com uma garota. Na noite seguinte, com outra e na terceira, com outra.

O problema é que no dia seguinte, essas três moças passaram dentro do mesmo carro e me acenaram na rua.

Achei estranho, mas era um adolescente de cidade grande e achava quase tudo normal.

Horas depois, tomando uma cachaça na beira do rio, conheci um sujeito muito simpático chamado Geraldo. Me lembro de ele ter me contado que era dono dos leites Betânia.

Depois de 3 cachaças já éramos os melhores amigos de toda a vida.

Por um momento, Geraldo se afastou porque foi chamado por um grupo de rapazes que se aproximava.

Quando voltou me disse: eles vão te bater.

Eu perguntei: todos eles?

Sim, disse o Geraldo, você saiu com a irmãs de cada um deles. São todos primos. Não se faz isso aqui.

Lembrei que no Nordeste as coisas se resolvem na peixeira e que, pelo fato de eu ser fisicamente maior, eles teriam mais espaço para me perfurar.

O meu amigo Mima apenas ria.

Geraldo me acalmou, voltou na direção dos rapazes e disse a eles que eu era de São Paulo e que as coisas eram diferentes e que eles tinham que entender, afinal, suas irmãs eram todas lindas e tal.

Tomamos mais algumas pingas para comemorar meu renascimento.

Fui me preparar para o baile daquela noite.

Eu e meu, agora inseparável, amigo Geraldo.

Se dediquei o post anterior ao Mima, esse eu dedico ao Geraldo, que salvou minha vida e também nunca mais vi.

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