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Texto pretensioso a partir de uma letra de Caymmi



Vamos chamar o vento. Vamos chamar o vento.

Vamos chamar o assobio. Vamos chamar o tempo. Chamar o riso. A espuma, a preguiça, alguns olhares, uma sombra. A pausa. O viço. Vamos chamar o outro.

Vamos chamar a ponte. Vamos chamar o horizonte. Chamar o córrego. A poça. Muita, muita árvore. Vamos chamar o cascalho. Vamos chamar o orvalho. O gavião. O zunido. A prosa, a folga, a trilha, o mapa. Vamos chamar a farpa. Chamar o doce. A delicadeza. Xamar o erro. Vamos chamar Pedro. Vamos chamar Maria. Chamar a Namorada. Toda a turma.

A cica do caju e também o cantil. Vamos chamar a cachoeira. Ou uma única abelha. Vamos chamar a saudade. Um espirro. O perfume. Vamos chamar a toalha. Chamar a fogueira. Alguma canção. Os chegados e os desafetos. Vamos chamar os cabelos, não o celular. Vamos chamar os distantes, chamar o bronzeado e a lama. Vamos chamar para o almoço. O arrepio. O esquecimento. Vamos chamar Nosso Senhor. Vamos chamar o sol, o sol, o sol e a chuva. Chamar o pó. Chamar a pluma. A fagulha. Vamos chamar a despedida. O fantasma. Algum choro, inevitável. Chamar até o improvável. Vamos chamar o bambu.

Vamos chamar Caymmi, o mestre da primeira chamada. Vamos chamar a nuvem, o silêncio, o desejo, o susto. Vamos chamar a fonte. Quem sabe algum piado. Vamos chamar o trovão. A rede. O olhar parado da vaca. A estrada. Vamos chamar o desvio. Um sotaque cantado. Chamar o alumbramento, a infância, o tio sumido. Vamos chamar o cio.

Chamar de volta os vagalumes. A galáxia que explodiu há dois mil anos. Vamos chamar a distração. Não vamos chamar o táxi. Vamos chamar os órfãos todos, os brinquedos, a faísca. Vamos chamar o ronco do porco, chamar bem alto os esquecidos. Vamos chamar a visão. Eva e Adão. Chamar as histórias, o feriado, o prazo. Vamos chamar o sossego e o desassossego. Chamar os velhos companheiros.

Vamos chamar, insistir, chamar de novo. Quem souber assobiar, que ajude. Depois, refazer a chamada. E ai daquele que não atender.


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