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The Octopus Killer

Atualizado: Out 10

THE OCTOPUS KILLER


Se não me engano, foi a dona Maria, mãe da Cristiana Beltrão, que disse que jamais comeria polvo.


Há mesmo quem implique com o aspecto, a textura, o cheiro, a gosma, o grão de areia que não se desprendeu da ventosa e outras frescuras afins.


Não dona Maria, lógico. Cientista, arqueóloga, professora, ao participar de um simpósio na universidade de Sorbonne, ouviu de um colega antropólogo que a estrutura do órgão de visão do molusco é quase igual a dos olhos humanos, o que criou uma barreira intransponível para levá-lo à mesa, ainda que a malcriada filha rotulasse a explicação materna de ‘desculpa esfarrapada’. Grossa, a Cris.


O nobre motivo certamente seria endossado pelo filósofo australiano Peter Godfrey-Smith, para quem ‘os polvos são o que de mais parecido com uma inteligência extraterrestre podemos encontrar na Terra’.


Já a minha mãe começou a comer polvo por vingança.


Após um mergulho em Búzios, fisguei um bem grande (pesou 4,2kg). Deixei-o na pia da cozinha e fui para a área de serviço lavar o neoprene, os pés de pato, a tralha toda.


Com um dos tentáculos agarrado à torneira, o monstro escapou para a bancada de inox e rastejou para a sala. Dona Maud chegou da praia, não viu a viscosa trilha no assoalho e, cá-tá-pum, estabacou-se, com o rosto colado no bicho. E assim...


Cora Rónai escreveu uma tocante coluna sobre o documentário ‘My Octopus Teacher’ (intraduzível, ponto), que retrata a poética história entre um mergulhador e o protagonista.


Cora espinafrou o aluno cineasta Craig Foster, por ele não ter arpoado o tubarão listradinho - parecia personagem de Procurando Nemo - que atacou o polvo. Questionei duramente a festejada cronista se o polvo interferiria em um ataque do tubarão contra Craig. Duvido.


Quanto ao cenário, a Dias Ferreira, no Rio, e os Jardins, em Sampa, parecem habitats muito mais inóspitos e violentos do que aquela suingada floresta submarina ou até mesmo que os aquários da Cora, cercados por felinos muito mais vorazes que os predadores que aparecem no filme.


A quem se impressionou com as extraordinárias habilidades do polvo para se camuflar, sugiro refletir sobre certos seres humanos cuja insignificância é muito mais eficaz para se fazerem despercebidos.


Apesar de o ponto principal do filme ser o inusitado relacionamento de Craig e o Octopus, só quem não convive com Os Impostores pode julgar extravagante fazer amizade com um molusco.


Por fim, a maior lição que o filme passa é a de que todos os polvos do planeta (as lulas também) devem manifestar nas disposições de última vontade o desejo de serem cremados.


Melhor dizendo, grelhados. E servidos com arroz de brócolis ou batatas ao murro e um fio de azeite.

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