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The Talkei Show!

Atualizado: Jun 30

Dois obstáculos conspiraram contra a minha iniciação religiosa: a pregação ateísta do meu pai contra os intuitos de sua sogra católica e as peladas em frente à velha casa da Rua Sadock de Sá, num tempo em que correr atrás de bola no coração de Ipanema não resultava em atropelamento.


Minha avó bem que se esforçou, levando-me a algumas missas dominicais na igreja de Nossa Senhora da Paz. Na tentativa de acreditar em Deus ou de, pelo menos, convencê-la disso, eu encenava com os lábios algumas rezas e cânticos, olhos fechados, mãos erguidas.


Até hoje quando vejo na TV algum jogador de futebol fingindo cantar o Hino Nacional lembro da cara de satisfação do padre.


Afinal, também para os torcedores, a lágrima escorrendo pelo rosto do atleta e a mão sobre o coração superam qualquer tropeço musical para traduzir sua dedicação à pátria de chuteiras.


Aquela minha bem intencionada transgressão paroquial foi resgatada quando assisti a execução de ‘Ave Maria’ na ‘Live’ de nosso presidente, em homenagem às cinquenta mil vítimas da pandemia.


Depois do ‘E daí?’ esquerda e direita (só o Centrão pediu outras coisas) não cobravam de Bolsonaro um gesto de conforto às famílias enlutadas? Pronto. Taí. Missão dada...


Não questiono a trilha sonora de Schubert do ‘pocket show‘ de Gilson Machado Neto que, além de bom no fole, é crooner de uma big band chamada Forró da Brucelose.


Um parêntese. Ao contrário do que comunistas brasileiros e humoristas portugueses (ou vice-versa) andam espalhando, Brucelose não é um vírus. É uma bactéria. Nada tem a ver com a COVID-19. Fecha.


O que me decepcionou foi a performance do presidente, sua absoluta falta de talento para driblar o enfado. Parecia o Jô Soares quando ficava de saco cheio do entrevistado. Só que o Gordo tinha os divertidos Bira e Derico para disfarçar a falta de paciência e não um catatônico Paulo Guedes.


Ninguém esperava Bolsonaro interpretando uma carpideira soluçando, mas não custava nada afetar um ar levemente compungido ou compenetrado, mais adequado ao roteiro de um filme-catástrofe cujas cenas reais prescindem de efeitos especiais.


Completamente alheio ao clima de velório, o âncora do talk-show oficial pôs-se a interagir com os elementos cenográficos que sua equipe de produção deixa sempre à mão: algumas folhas de papel, uma caneta e um par de óculos. Esgotados esses recursos, esfregou ansiosamente as mãos, aflito para o lamento do sanfoneiro chegar ao fim.


A ostensiva indiferença com a homenagem póstuma lembrou o protagonista de Camus em O Estrangeiro: “Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’ Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.”


Na próxima ‘live‘ do gênero, que tal os cenógrafos deixarem um telefone celular ou uma canequinha em cima da mesa? Pode ser vazia mesmo.


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