Buscar

Tira esse Van Gogh daí!

Eu detesto festa de criança.

Detesto casamento também, mas festa de criança eu detesto mais.

Mesmo no meu segundo casamento, quando Mônica e Daniela eram pequenas e tinham festinhas de amiguinhas, eu dava "um jeito de não ir” e me empirulitava pra outro lugar.

Nas festinhas de aniversário delas eu não faltava, claro.

Mas isso é só pretexto pra contar uma história.


Numa das festinhas de criança que declinei, resolvi ir sozinho à Bienal de São Paulo.

Era um sábado.

A Bienal foi aberta na sexta para autoridades e convidados e, no sábado, para o público.

Isso foi no final dos anos 90, não lembro exatamente o ano.

Foi umas das melhores Bienais de SP, na minha opinião.

Entrei no estacionamento perto das 18h com o céu formando nuvens bem carregadas e um prenúncio de temporal.


No primeiro e no segundo andar, estavam artistas contemporâneos escolhidos pela curadoria e tal.

Se não me engano, o tema era algo antropofágico.

Subindo as rampas curvas do lindo prédio da bienal, cheguei ao terceiro andar, onde estavam as obras dos artistas já historicamente consagrados: Van Gogh, Eckhout, Guignard, Malfati, Volpi, Di Cavalcanti e tantos outros.


Deu tempo de ver tudo até que um barulho estranho começou a chamar a atenção das poucas pessoas que ali estavam.

Era o barulho da tempestade caindo sobre o telhado do prédio.

Chovia muito, mas, muito mesmo.

De repente, a luz se apagou, breu total.

Não sei porque, me agachei. Não enxergava nada.

Durante segundos fiquei imóvel, até que o gerador foi acionado.

Um alívio.

Apenas temporário.

Um estrondo, seguido de outro, e outro, e mais outro.

Eram lâmpadas estourando.

A água começava a descer em cascatas pelas várias luminárias do teto do prédio. Ao bater no chão, respingava nas obras de arte.


Era tudo chocante demais.

Uma italiana olha pra mim e pergunta, em italiano, o que esta acontecendo.

Piove, eu disse.

Foi a única coisa que me ocorreu.

Dezenas de monitores da Bienal chegam correndo, esbaforidos e um deles grita pra mim: tira esse Van Gogh daí!


A minha aventura estava apenas começando.

Tirei o Van Gogh da parede e procurei um lugar seco para apoiá-lo.

Algumas obras, me lembro, além de grandes, tinham proteção de vidro. Sorte, porque muita água respingou ali.

Eu e uma monitora as tiramos com cuidado até um local seguro.

Em outra parede, um filete de água escorria bem perto do famoso quadro de Pedro Américo, Tiradentes Esquartejado.

Ele era enorme (deve ser ainda). E foi um dos mais difíceis de retirar.

Dali em diante, carreguei Di Cavalcanti, Welsley Duke Lee, Eckhout e tantos outros para lugares protegidos da água da chuva.


Até que fomos interrompidos por um sujeito que chegou nervoso e que parecia ser o chefe da bagaça toda.

De maneira até um pouco mal educada, começou a nos tocar pra fora do prédio pedindo desculpa.

Claro, imagine o valor daquelas obras e a gente carregando daqui pra lá com aquela iluminação precária.

Tava fácil de surrupiar uma delas.

Pensei nisso e já me vi numa casa em Porto Fino.


Mas a realidade me jogou pra fora do prédio ainda chocado.

No estacionamento, entre árvores e galhos caídos. Encontro meu carro solitário.

Entro. Respiro fundo. Preciso contar isso pra alguém.

Ligo para o meu amigo Elifas Andreato, com quem estive na noite anterior.

Descrevo tudo que aconteceu, em detalhes, como uma criança que foi na festinha mais legal de toda a sua vida.

Ele entendeu tudo.

60 visualizações2 comentários

©2020 by Os Impostores