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Todas as palavras.

Atualizado: Set 10

Ele entrava na sala de aula sem olhar a bagunça que nela havia.

O corpo magro, a pele clara e a barba lhe davam um aspecto frágil diante de adolescentes cheios de energia e má vontade.

Era mais uma aula de Português do professor Camilo.

Mas, aquele dia e aquela aula foram diferentes: pra ele e pra mim.

Hábil com o giz, Camilo começou a escrever na lousa algo que parecia um poema.

A turma inquieta daquela oitava série do ano de 1975 estava indiferente, e até aproveitava para continuar bagunça que precedia a aula.

Camilo tinha o respeito dos alunos. Era o que chamaríamos hoje de um professor “descolado”.

Quando terminou de escrever, revelou que, naquela aula, iria mostrar a força das palavras.

E começou a ler o tal poema.

O rei da brincadeira (ê, José) O rei da confusão (ê, João) Um trabalhava na feira (ê, José) Outro na construção (ê, João)

Vocês já sabem do que se trata, mas eu não sabia.

A aula foi uma viagem.

Camilo mostrava a dança das palavras e a força dos seus significados.

Quando ele leu que José “viu Juliana na roda (gigante) com João” e as palavras começaram a girar como numa roda gigante, eu pirei.

O sorvete e a rosa (ô, José) A rosa e o sorvete (ô, José) Foi dançando no peito (ô, José) Do José brincalhão (ô, José)

Tudo era novidade. Um mundo totalmente novo.

Repare que foi uma aula sobre o texto da canção.

Ou seja, sem o reforço da melodia e da harmonia que deixariam aquilo tudo ainda mais forte.

Enfim, o professor Camilo nem imagina o quanto essa aula foi marcante na minha vida.

Aquele moleque de 14 anos, até então roqueiro, acabava de perceber a importância da palavra.

Não tenho palavras pra agradecer ao professor Camilo.

Minto, tenho todas, graças a ele.

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