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Todos estão surdos.

Atualizado: Abr 11

O presidente ajeitava a gravata, enquanto esperava o OK para gravar o pronunciamento em rede nacional. Num canto inferior da tela, Débora, a moça tradutora de libras, esperava com o semblante impaciente.


O diretor dá OK. Gravando.


O presidente persegue as palavras do teleprompter com dificuldade.

Parece que existem vírgulas entre todas as palavras.


Lá embaixo, num canto inferior da tela, Débora, a tradutora de libras, franze o cenho, mas continua gesticulando sinais.


O presidente tenta mostrar determinação na sua tese de que as pessoas precisam voltar para o trabalho. De que o Brasil não pode parar e aquela papagaiada toda que só ele e o ditador de Belarus acreditam.


O pronunciamento se aproxima do fim.

É a hora do nome de Deus em vão, da pátria amada, e todas essas coisas que um admirador de tortura gosta tanto.


Encerrou o pronunciamento e logo começou o bafafá na imprensa, depois que descobriram que a moça tinha feito a tradução em libras totalmente diferente.


O presidente falava e Débora, por sinais, “traduzia”:

“fiquem em casa porque o Covid-19 é coisa séria e pode matar muito mais do que a gente imagina. Esse maluco aqui em cima não sabe o que fala.”


Nunca mais encontraram Débora, só o bilhete que ela deixou dizendo:


“Tentei salvar dez milhões de vidas, só isso.”


No Brasil, estima-se que existam dez milhões de deficientes auditivos.

Se Débora existisse, seria minha heroína.

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