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Três irmãos.


Eram três irmãos, mas só um deu certo na vida. Se é que ter uma mulher, filhos e um bom emprego é dar certo na vida. Deve ser, considerando o tanto de gente que quer ter uma mulher ou marido, um par de filhos e um bom emprego. Os outros dois irmãos não tiveram a mesma sorte. Um teve a vida tão medíocre que se fosse para contá-la nem haveria texto. Apesar de que tem gente que acha que a vida medíocre é mais tranquila. Ignorância é uma dádiva, eles dizem. Pensando assim, uma vida medíocre pode ser dar certo na vida também, vai saber. O terceiro irmão não teve mulher, nem filhos. Emprego teve, mas nenhum que prestasse. Ao invés de dar certo na vida, preferiu ir morar nos Estados Unidos, porque lá sim era um lugar que valia a pena. Tem gente até que acha que viver nos Estados Unidos é dar certo na vida.

Tem de tudo no mundo, afinal. Esse irmão, por exemplo, dizia:

– Imaginou? Desperdiçar a única vida que eu tenho nesse país de merda?

O irmão que deu certo não concordava, nem discordava. Para ele, cada um escolhe seu caminho. Ele, por exemplo, ficou aqui mesmo. Os gêmeos foram crescendo enquanto ele subia no financeiro da firma e a mulher envelhecia, cuidando de todos. Porque mulheres envelhecem mais rápido que homens, isso ninguém discute.

– Homem envelhece, mulher apodrece. — dizia o irmão que deu errado na vida. Não o dos Estados Unidos, o outro.

Eram os anos oitenta. Naquela época podia falar essas coisas e ainda dar risada depois. Mas o que deu certo não ria, porque era um homem bom, independente da época. E porque ia dando certo e subindo na vida, a firma virava e mexia o mandava para os Estados Unidos aprovar orçamento com os gringos da matriz. Mais do que se sentir importante, ele gostava de ir para os Estados Unidos porque podia rever o irmão. Era um tempo que não tinham ainda inventado o celular, ou a internet, então os Estados Unidos eram muito mais longe. Não dava para ficar falando toda hora. Ainda mais com os gêmeos na escola e as contas e a mulher e a parcela do carro e o portão novo da garagem e a mulher e o supermercado e o aluguel e a mulher. Não dava para ficar ligando interurbano. Às vezes passavam meses até que o irmão que deu certo soubesse algo do irmão que foi para os Estados Unidos. Do irmão que deu errado ele tinha notícias sempre, geralmente para emprestar dinheiro. Nos Estados Unidos é difícil dar certo. Então o irmão morava num subúrbio feio. Blue collar, como eles diziam. Morava com sabe lá deus que outros dois sujeitos e uma moça. Tudo ilegal. A moça era mexicana ou colombiana ou peruana. Acabava em “ana” mas ele não sabia direito qual. Já os dois sujeitos, o irmão que foi morar nos Estado Unidos não sabia de onde tinham vindo. Porto Rico, achava.

– Aqui quem é de Porto Rico é que nem americano, só não vota pra presidente. Já brasileiro só se fode. — dizia quando o irmão que deu certo vinha para os Estados Unidos.

Nesses dias, a firma pagava um hotel bacana, com cama de casal grande e lençóis sempre esticados e frios. Aí o irmão que deu certo convidava o outro para viver uma vida americana, junto com ele, no hotel. Dormiam os dois na cama de casal que nem quando eram moleques. O irmão que deu certo percebia a distância que foi se criando entre os dois. O irmão que foi morar nos Estados Unidos foi ficando simplório, a pele sofrida, as mãos cada vez mais ásperas e um cheiro diferente do que tinham na infância. Mas o irmão que deu certo não ligava.

Nem comentou com ninguém. Nunca. Nem com a mulher.

E olha que não tinham segredos. Aqueles dias eram de uma felicidade imensa para os dois irmãos.

Jantavam fora, tomavam vinho, andavam pela cidade e conversavam da vida que tinham ou poderiam ter tido. Apesar de nunca ter sido convidado para conhecer o apartamento no subúrbio e de não conhecer a mexicana nem os outros dois sujeitos, o irmão que deu certo sabia que a vida do outro não era fácil, saltando de subemprego em subemprego e morando no fim do mundo. Na verdade, como não era convidado, preferia até não ver onde o irmão morava. Foi assim um tempo. Mas como as coisas sempre mudam, um belo dia o irmão que deu certo foi apresentar o orçamento da firma para o ano seguinte. Como sempre, botou o irmão no hotel bacana. Depois da reunião, disse:

– Chega dessa história. Quero ver onde você mora.

Assim, do nada. O irmão que morava nos Estados Unidos não queria, mas foram. De trem, foram vendo pela janela a cidade sujar, escurecer, poluir, envelhecer. O irmão morava num desses condomínios onde os negros moram. Os negros, os miseráveis, os latinos, os drogados. O irmão que deu certo sabia o que esperar. Mas era pior. O apartamento era pequeno, sujo, deprimente. Era para uma pessoa só, mas moravam quatro. Um dos porto riquenhos dormia num colchão de espuma na sala.

– Aqui para o sol entrar, alguém tem que sair. — o irmão que morava nos Estados Unidos ainda tentou uma piada.

Mas ninguém riu, porque era verdade. A mexicana era diferente do que o irmão que deu certo tinha imaginado. Ele imaginou a Eva Longoria, a Sophia Vergara, a Penélope Cruz, apesar de nenhuma ser mexicana. A do irmão era gorda enorme, ensebada, grosseira com a camisa cheia de marcas de suor embaixo dos peitos. Os outros dois eram Cubanos. Ou Mexicanos. Ou Porto Riquenhos. Tudo a mesma merda, o irmão que deu certo pensou e logo se arrependeu, porque não se deve pensar isso, apesar de ser o final dos anos oitenta e a gente ainda poder ser preconceituoso nessa época. Conversaram pouco. O irmão que deu certo não tinha assunto com os chicanos. E vice versa. Na hora de ir embora, o irmão que deu certo pediu para usar o banheiro. Foi estranho. Os quatro se entreolharam de um jeito esquisito e o irmão que deu certo percebeu. Deveria ter desistido de ir ao banheiro. Mas não desistiu. O banheiro era um nojo. Muito pior do que ele imaginou. Tudo sujo, emporcalhado. Não tinham papel higiênico. Nem escovas de dente que geralmente ficam num copo, em cima da pia. Roupas pelo chão, toalhas sujas, furadas, a privada rachada e sem tampa, dessas que a gente tem que sentar direto na porcelana gelada. Demorou um pouco, porque era muita informação, mas uma hora o irmão que deu certo viu o que não era para ver. Sobre a pia, num canto, um punhado de agulhas, seringas, elásticos, uma colher e um isqueiro. O irmão que deu certo levou alguns segundos para entender. Ou entendeu na hora, mas o tempo levou mais segundos para passar. Sentiu o corpo ceder de tristeza. A volta para o hotel foi silenciosa. Não se falaram. Mas antes de ir para o aeroporto o irmão que deu certo perguntou o que tinha que perguntar.

– Não uso. Juro. Aquilo é deles, não é meu. — o irmão que morava nos Estados Unidos respondeu.

O irmão que deu certo acreditou, porque eram irmãos, sabe como é. Os anos passaram e o irmão dos Estados Unidos voltou para o Brasil. Como não tinha onde morar, foi morar no apartamento do irmão que deu certo. O irmão já tinha dado certo tudo que tinha para dar, então o apartamento era enorme, confortável, ainda mais agora que os gêmeos tinham ido estudar em Londres. O irmão que deu certo não perguntou porque o outro voltou. Os Estados Unidos tinham feito mal a ele. Estava ainda mais velho do que deveria estar, mais magro, mais triste. A médica que tratava os três desde criança ficou impressionada. Fez um monte de exames, mas graças a deus não deu nada. Era só se alimentar bem, parar de fumar e pronto. Mas o irmão não melhorou. Um dia, a mulher do irmão que deu certo ligou para ele na firma.

– Você precisa vir mais cedo pra casa hoje. – Por que? – Porque seu irmão quer falar com você. – O que ele quer falar? – Ele quer falar, ué? Não é seu irmão? Deixa ele falar. – Você sabe o que é? – Sei. Mas prometi não contar.

Deveria ser coisa ruim, então, porque se fosse notícia boa a mulher não aguentaria guardar segredo. Quando chegou em casa, o irmão que morou nos Estados Unidos entregou dois exames de sangue para o irmão que deu certo. Um exame era recente, o outro de uns seis meses atrás. O irmão que deu certo olhou, olhou, olhou e, fora uma hemoglobina ou outra que ele não entendia, estava tudo certo. O que era para ser positivo estava positivo e o que era pra ser negativo, negativo.

– Olha o HIV — pediu o irmão que morou nos Estados Unidos. – Que que tem? Tá aqui, negativo. – Olha contra a luz.

O irmão que deu certo olhou. Por baixo do “N”, na contra-luz, dava para ver o “P” que o irmão que morou nos Estados Unidos tinha raspado com uma gillette. Ninguém sabia. Ninguém podia saber. Nem a médica que cuidava deles desde criança sabia, porque naquela época não tinha exame por internet. Foram vê-la. Na consulta, quando contaram, a médica chorou. Médico chorar é como piloto de avião pedir para os passageiros rezarem. Era tarde demais para qualquer tratamento, numa época que não existia praticamente nenhum tratamento. Ainda assim, demorou. O irmão que morou nos Estados Unidos emagreceu muito, teve um derrame que paralisou o lado esquerdo inteiro. Um dia pegou toxoplasmose. A médica que chorou chamou o irmão que deu certo e chorou de novo. Explicou que a AIDS era assim mesmo. Não havia como melhorar. A toxoplasmose ia matar o irmão. Em dias. Semanas no máximo.


– Ele parece que sabia. Na véspera me pediu para passear. Para ir nas casas que morávamos juntos quando éramos pequenos, lá na Aclimação. A voz dele já não era a mesma. Falava muito baixo, estava muito fraco e ainda tinha isso do derrame. Eu levei, né? Fomos em cada rua e em cada casa ele pedia para esperar um pouco. Ficava ali, olhando, pensando, em silêncio.

O irmão que deu certo agora está com a voz trêmula. Bem ele que deu tão certo, que apresentava orçamento para os gringos e tudo.

– Ele nunca disse como pegou AIDS. A gente nunca achou que ele fosse gay. Mas também nunca achou que usasse drogas. — pensando alto. – Se fosse hoje, com esses remédios que tem agora, ele estaria bem. Mas naquela época não tinha nada disso.

O irmão que deu certo fez uma pausa. Estava chorando o máximo que conseguia. Sem nenhuma lágrima. Sem nenhum soluço. Sem nenhum ruído. A vida tinha tirado dele essa capacidade de chorar como todo mundo, de tão difícil que era tudo na vida, pra gente poder dar certo. Mas ele estava chorando do seu jeito.

– Ele nunca tinha falado de AIDS. Nunca nem usou essa palavra.

O irmão que deu certo na vida abaixou a cabeça para não mostrar os olhos.

– Justo nesse dia, que a gente visitou a nossa infância, quando eu ajudei ele a deitar, ele me puxou para perto. Segurou na minha mão e falou baixinho, meio rouco, apenas “foi a droga”.

O irmão que deu certo olhou para mim e entortou os lábios como a gente faz quando se resigna.

– A gente sabe quando chega a hora. – terminou.


Nota: esta crônica foi publicada originalmente no meu Medium. Estou transferindo para osimpostores.com alguns desses textos mais recentes.

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