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Tudo se ajeita.

O pai não tinha dinheiro.

A mãe tinha.

Coisa de família.

O pai veio da classe média.

Baixa.

A mãe era filha de um industrial, por parte de pai e neta de outro, por parte de mãe.

Família quatrocentona ou elite paulista, como diria o Mujica.

Moravam nos Jardins, naquele pedaço que só tem casa de rico sem muro, porque não tem ladrão corajoso o bastante para assaltar aquela região.

Perto da casa do Doria, que tem mais muro que casa.

Enfim.

O casal decidiu se divorciar.

– A verdade é que ele não decolou, sabe? - A mãe explicava para a melhor amiga num almoço no jardim da casa, depois de revelar o divórcio.

Quando casaram, o pai era uma boa promessa.

Colegas de classe na GV, ele com bolsa, ela filha de alumni.

O pai era o tipo de sujeito boa praça, que juntava gente em mesa do bar.

A mulherada principalmente.

Ela se apaixonou.

Ele também.

E não foi amor pelo dinheiro, no caso dele. Foi amor de gente mesmo.

Tiveram a Natália, os anos passaram e ele se acomodou.

Também, pudera, foi trabalhar de assessor do sogro que nem precisava de assessor.

Com o tempo, mal aparecia no escritório.

Preferia ficar em casa com a filha, compondo músicas que ninguém ouvia, ao piano.

Como tinham feito um acordo pré-nupcial, o pai sabia que viriam tempos difíceis pela frente.

"Tempos difíceis pela frente" é um eufemismo.

Ele sabia que sairia do casamento com uma mão na frente e outra atrás.

Até o emprego ia perder.

Bem ele que sempre foi bom marido. E pai melhor ainda.

O melhor pai do mundo, a filha dizia.

– Nem tanto... tem um na Jamaica que é melhor que eu - ele brincava, os dois no quarto dela, como ele fazia todas as noites porque gostava daquele tempinho com a filha antes dela dormir, desde quando era pequena.

A menina tinha 16 anos e ainda não sabia que o pai e a mãe iam se divorciar.

E iam mesmo.

Tudo porque além de decepcionada, a mãe encontrou um ex-namorado do tempo do Pueri no Shopping Cidade Jardim.

Recém divorciado ele.

Almoçaram no Pariggi, porque ainda não tinha quarentena.

Trocaram WhatsApp.

O pai descobriu por acaso que a mãe andava saindo com o ex-namorado.

Viu sem querer uma notificação no celular dela.

Não confrontou a mulher porque não teve coragem.

Mas se convenceu que iria relevar em nome da felicidade da filha.

Mentira.

Era medo do divórcio mesmo.

Então ficou lá, aguentando o sofrimento e o machismo humilhado, em nome de manter a vida estável.

Até que a mãe decidiu que aquilo tinha que acabar.

O resto vocês já sabem.

Então estamos assim.

O pai no quarto da Natália, preocupado com seu futuro.

– Que foi pai?

O pai não consegue mais esconder:

– Nat, o papai precisa contar uma coisa muito importante pra você.

A menina entende a gravidade pelo tom de voz.

– Uma coisa que vai deixar você muito triste, mas que o papai promete que não vai ser tão ruim quanto parece.

– O que pai? - Natália já está com os olhos cheios d'água, porque filhos percebem quando as coisas vão ficar feias.

– O papai e a mamãe vão se separar.

Natália sempre foi muito controlada, então chorou desesperadamente, para dentro, abraçada ao pai.

Não perguntou nada.

Não disse nada.

Apenas chorou, dilacerando ainda mais o coração do pai, que esperava uma reação mais explosiva para que ao menos a filha externasse sua dor.

Consolou mentindo:

– A vida sempre pode ser boa, filha. Pensa. Você vai ter dois de tudo. Duas casas, dois quartos, dois guarda-roupas. Pode até ter um cachorro lá em casa. - a mãe odiava bichos em geral.

O pai mentiu porque, na verdade, não sabia nem onde iria morar.

Provavelmente voltaria para a casa da mãe.

– Mas você conheceu alguém? É isso?

– Claro que não filha! - o pai se surpreendeu com a pergunta e deixou escapar - Na verdade eu nem queria, mas a mamãe acha melhor...

A confissão foi espontânea, mas maldosa, ele sabia.

Bastou para Natália voltar a chorar de soluçar.

– Mas pai! Você vai ficar muito sozinho sem a gente... - agora ela estava tão triste por ela quanto por ele - Como você vai comer? Você não sabe cozinhar... e... meu deus... como você vai viver... a gente nunca mais vai viajar juntos e...

O pai percebeu que a filha aos poucos concluiria os tempos difíceis que ele teria pela frente.

Foi ali que ele teve a ideia.

Não era coisa fácil de aceitar a ideia que ele mesmo teve.

Talvez ele nem levasse em frente se a mãe não tivesse saindo com aquele sujeito.

Ocorre que, nos 20 anos de casado, ele nunca viu uma única fatura de cartão de crédito nem dele, nem da mulher, muito menos da filha.

Pagamentos simplesmente aconteciam naquela família.

Da luz e do gás às casas na praia, Trancoso, a fazenda, a lancha.

Ninguém nunca se preocupava em quanto custavam as mordomias e o conforto que o sogro provia para todos.

Alguém no escritório cuidava dessas pequenezas que são os boletos.

Então, o pai que sempre foi um sujeito íntegro, bom marido, bom amigo, bom tudo, decidiu que a filha seria sua salvação.

Natália tinha um MasterCard Black. Sem limite.

Ninguém, óbvio, conferia os gastos.

Claro que nunca foi uma decisão explícita.

Mas a filha era quase adulta, já.

E entendeu, sem terem que falar nada.

Era muito apegada a ele.

Foi coisa que aconteceu naturalmente, com os meses passando e o divórcio consumado.

Alugou um apartamento e, como não tinha fiador, a filha pagou seis meses adiantado no cartão.

Os móveis vieram de uma loja de decoração que a filha escolheu.

Dessas que você chega em casa e está tudo lá.

No cartão da filha.

Comprou um carro, porque não tinha mais motorista.

A filha escolheu o modelo e a cor.

Natália pagava feliz, porque sabia que o pai precisava.

E porque, afinal, o divórcio tinha sido ideia da mãe.

Pagava até com um certo prazer, agora que a mãe tinha apresentado o namorado novo, um engomadinho ridículo.

Hoje já vão três anos desse acerto.

O pai escreve jingles e trilhas para cinema, ao piano.

Não ganha muito, mas com o cartão da filha consegue se virar.

O pai desconfia que o sogro e a ex-mulher sabem do arranjo e fazem vista grossa, por carinho pela menina.

E porque, convenhamos, ele sempre foi um bom pai e um bom marido.

Só não decolou, mas isso ele nunca se deu conta.

Nunca mais viu ninguém daquela família.

Só a filha, ele vê sempre, quase todos os dias.

Almoçam juntos no Rodeio do Iguatemi todas as quartas, que ela sabe que o pai adora.

Na hora de pagar, a filha passa o cartão por baixo da mesa para o pai.

E sempre se lembra do que ele disse um dia: a vida sempre pode ser boa.

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