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Um país que mata seus filhos.

Atualizado: Mai 21

1.179 mortes em um dia.

18 mil no total.

Já estamos no pódio entre os três primeiros colocados no mundo em número de contaminados.

Entramos para o G5 dos países que passaram de mil mortes em uma só jornada.

O sexto em número de mortos.

Enquanto isso, ministros da Saúde vão virando estatística também.

Já estamos no terceiro, desde que começamos a encarar a pior pandemia dos últimos 100 anos.

Um nem gastou a cadeira, ou entendeu o que faz um ministro da Saúde.

Agora temos um interino.

Um troglodita do Exército.

A perfeita representação da falta de delicadeza que caracteriza o tratamento que este governo esdrúxulo dispensa aos seus cidadãos. Pelo menos isso: não tem mais disfarce.

Médicos são doces, desejavelmente humanos.

Militares são oposto.

São treinados para não pensarem, não se emocionarem, não se deixarem abater com as perdas que perecem pelo caminho.

A chegada de um rambo, justo agora, deixa patente o quanto desistimos do conhecimento capaz de diminuir o risco do nosso iminente desastre humanitário.

Trocamos a sabedoria pela força bruta - para carregar os corpos que vão se acumular ainda mais pelo caminho.

Hoje, o Ministro do Exército da Saúde nomeou nove assistentes para o Ministério.

Todos igualmente militares.

É uma guerra, já diziam na TV.

E essa gente indecente outra vez reduz sua compreensão à literalidade. Talvez nem isso.

Fosse um campo de batalha de uma guerra de fato, haveria mais médicos verdadeiros para receber e tratar os feridos.

E haveria mais respeito à vida, certamente.

A soldados se dá medalhas.

Ao contribuinte, abandono.

Descaso.

Tripúdio.

No mesmo dia em que chegamos a 1.179 brasileiros mortos também ouvimos histórias pedagógicas.

Um militante que ficou famoso em algumas fotos, sem máscara e sem pudor, nos protestos e manifestações por "um novo AI-5 e um golpe militar", é uma das baixas do dia.

O presidente da Anvisa, que andou lado a lado com Bolsonaro em manifestações do mesmo teor, se encarregando inclusive das selfies com celulares alheios, acusou positivo em seu exame também.

Esperamos que para além do privilégio de testar e saber seu resultado quase imediatamente, pelo menos não tome de alguém que respeitou a doença, um leito, um respirador, uma UTI.

Insensível, a esta altura, já confesso não me importar se a disputa dele terminar sendo por uma boa localização num terreno com valas a sete palmos de profundidade.

Em pouquíssimos lugares do mundo as atenções da população se dividem entre dois assuntos avassaladores.

Se em toda parte a Covid-19 monopoliza noticiários, pronunciamentos oficiais de governos, o interesse de pais, filhos, irmãos, amigos, concidadãos, aqui, quando isso já não é menosprezado, ridicularizado, tripudiado, dividimos o foco de atenção com os assuntos espúrios que envolvem o grupelho familiar que tomou o poder através do voto de pessoas com sérios problemas emocionais e que hoje se mantém especialmente graças a fanáticos renitentes, que seguem encontrando justificativas para tudo o que o torpe presidente destrói compulsivamente, diariamente, em nosso frágil país: seja a ética, seja o sentido de compaixão, sejam os valores morais que ele tanto jurou defender, seja o que ainda nos restava de amor próprio e de esperança cada vez mais cadavericamente esfacelada.

Distraídos pela doença que espreita e nos aflige, muitos não notam as entrelinhas do juiz de estimação, co-optado até o último pelo do rabo que balança, e já diz vislumbrar um processo convenientemente demorado contra seu dono - e coincidentemente crava 2022 como provável data para um veredito.

Isso não se antes ameaçar o ex-ministro da Justiça, que pode ser chamado para novo depoimento, como reprimenda repressiva.

Por bater boca com o intocável mandatário "supremo", nas redes sociais.

Para não ficar nisso, só aceita que eu e você vejamos o vídeo constrangedor da constrangedora reunião "secreta" de ministros constrangedores, em suas partes não-constrangedoras, deixando no ar alguma dúvida sobre se haveriam tais partes.

Para onde quer se olhe, se vê é idiossincrasia, hipocrisia, canalhice institucionalizada, já é maçante repisar.

Bandido entrega bandido - desde Pedro Collor é o que nos resta no Brasil.

Festejamos delatores premiados, pústulas arrependidos, escória penitente.

Nossos heróis são traidores de suas próprias gangues, que lhes viraram as costas: Roberto Jefferson, Palocci, Marcelo Odebrecht e a lista vai a perder de vista.

E são 1.179 mortos.

E o presidente brinca de médico.

Cloroquina, ele diz, para quem é de direita.

Tubaína, ele pisoteia sobre os mortos de hoje, para quem é de esquerda.

Até nisso erra, o imbecil.

Na Venezuela do seu correlato patético é ao contrário.

De igual a estupidez e o descaso. 1.179 mortos.

O Brasil não vela nem chora seus mortos.

O Brasil é um país que mata seus filhos.

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