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Um possível final feliz

Atualizado: Jul 8

As redes sociais estão comemorando a demissão sumária de uma moça que, acompanhada de um sujeito tão alcoolizado quanto ela, ofendeu um agente da Vigilância Sanitária que cumpria a árdua tarefa de advertir os frequentadores de um bar sobre a importância do distanciamento social.


Entre boca-mole e arrogante, a jovem subiu nas tamancas de contribuinte contra o servidor – ‘A gente paga você, filho’ –, retrucando o tratamento dado ao seu par – ‘Cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você!’


Ninguém ali tinha a obrigação de saber que o responsável pela operação, Flávio Graça, é doutor, mestre e professor universitário, mas até os sem-noção mais bebuns não podem ignorar que um analfabeto é tão cidadão quanto o portador de um currículo, ainda que fajuto como o do Decotelli – o que não é o caso.


O estabelecimento foi fechado pelas autoridades e as contas do casal nas redes sociais foram fechadas por um vírus contra o qual não há vacina e que só o tempo pode remediar: o da vergonha, em uma cruel combinação de isolamento social com virtual.


Estava de bom tamanho? Com a palavra o principal interessado, que parece estar longe de querer levar o caso a extremos: ‘As ofensas são iguais a um presente. Se você recebe, é seu, se você não recebe, não é seu. Eu também acho que as pessoas não devem ser agressivas com esse casal, se não elas vão acabar cometendo o mesmo erro que eles cometeram’. Mais que estóico, esse Flávio é um fofo.


Só que o caso ganhou os holofotes e então a empresa na qual a moça trabalhava achou pouco o dito pelo não dito. Não só a pôs no olho da rua, como divulgou uma nota pública ‘compartilhando a indignação da sociedade em relação a este lamentável episódio’ e decretando que ‘diante dos fatos expostos, decidiu por sua imediata demissão’.


Nada contra a política de compliance da empregadora, uma gigante do ramo energético, exceto uma ponderação.


Conforme reconhecido há alguns anos por ela própria, membros de sua administração figuravam em investigações policiais e processos judiciais. Um de seus executivos havia sido condenado a quase seis anos de cadeia por gestão temerária, outro foi submetido à condução coercitiva na Operação Acrônimo, um outro era alvo de uma representação no TCU no caso das ‘pedaladas fiscais’ e, por fim, havia um que respondia por um caso de dispensa indevida de licitação.


Como nada disso saiu no Fantástico, a empresa não 'compartilhou a indignação da sociedade em relação a esses lamentáveis episódios' e muito menos demitiu seus encalacrados executivos, apesar de, no informe divulgado a seus investidores, considera-los um ‘risco corporativo’. Ou seja, para seus próprios lucros. Coerentemente, aliás, ressalvou que a hoje moribunda Operação Lava Jato pesava como fator de instabilidade no mercado.


Então, uma de duas: ou os seus CEOs urgentemente reformulam o regime de compliance, adequando o tratamento a ser dispensado a quem seja suspeito de desvios ou inconformidades no andar de cima, ou, mais urgentemente ainda, recontratam a humilde funcionária do andar de baixo.


Seja qual for a opção, seria recomendável indicar para a chefia de um setor que lhe parece tão sensível, o ponderado Flávio.


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