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Uma lufada de ar fresco.

Atualizado: Mai 27

Eu sei que os dias são longos, que os meses, os anos, passam preguiçosos, imensos mesmo, quando somos crianças.

Um ano escolar, caracol, se arrasta por uma eternidade.

Talvez seja isso também que me dava a impressão de que as coisas duravam mais.

Geladeira, rádio, televisão, a gente já sabe, duravam mesmo.

Aí inventaram a tal obsolescência programada, uma sabotagem oficializada e tudo parou de existir numa fração de tempo do que as coisas permaneciam no tempo em que eu era criança.

Mas não era só isso que durava, não.

Na casa da minha avó, na vila onde também moramos alguns anos enquanto construíam nossa casa nova, sabonete Lux não acabava era nunca.

10 entre 10 estrelas do cinema se lavavam com ele porque ele levava uns 150 Doves para desaparecer.

Tanto que na pia do banheiro tinha um ganchinho que segurava um tipo de moeda imantada, que fazia par com uma outra, de ferro, que minha avó cravava no sabonete de modo a que ele preso nessa forca imantada, fazendo as vezes de saboneteira.

Então me diga: se papel higiênico hoje em dia já é tão pequeno que dá preguiça de

metê-lo no cilindro do porta-papel, você teria paciência para prender metal em sabonete se, já naquele tempo, um Palmolive virasse espuma em 5 dias?

A mesma coisa com as pastas de dentes.

Acredite, ainda hoje quando escrevo, vejo claramente, como se estivesse aqui na minha frente, a Kolynos, tubo de ferro já quase enferrujado, que morou uns 3 aniversários na casa da minha avó.

O creme era concentrado, bastava um cheirinho da pasta - vovó Isaura, econômica, ensinava - para fazer uma festa na boca da gente.

Era gigantesco, razão pela qual a festa durava algumas temporadas.

E o mais importante, tinha pasta preenchendo o tubo inteirinho.

Não entendeu?

Explico.

Já reparou na quantidade de ar que faz parte do conteúdo das pastas de dente hoje?

Ele está na fórmula?

Sério, aquilo deve ter alguma função.

Não bastou fazerem pastas de dente miniaturizadas, quase invejosas daquelas distribuídas gratuitamente em vôos internacionais e em hotéis baratos.

Eles ainda as enfiam nas caixas do tamanho das pastas que não existem mais.

Para enganar o tamanho real.

É como comprar uma caixa de 40 bombons e você encontrar uma unidade de Sonho de Valsa.

Ou levar para casa um ovo de galinha, que tem um ovo de codorna dentro.

Sem o ovo da cocoricó.

Dá processo no galinheiro.

Aqui, no mundo humano, parece que a gente se habituou.

Ninguém tem tempo de pensar sobre isso.

E já que o assunto é tempo, puuuf, em menos de 10 dias, lá se vai uma Close-up aerada.

Se você escovar os dentes 4 ou 5 vezes ao dia, o último suspiro ainda pode vir antes.

Talvez por isso tenha sido batizada com esse nome.

Durante a maior parte da vida dessa sumida a gente fica espremendo o tubo e olhando de pertinho pra enxergar se algum chorinho teimoso ainda sai lá de dentro.

Close up... entendeu?

Mas nem é o caso.

Pode ser de qualquer marca nacional, porque esperteza vira "case" aqui pelas nossas bandas.

Então, faz a experiência.

Quando você pegar um tubo novo e tirá-lo de dentro daquele caixão onde ele samba, feito sob medida para que bobos que nem eu e você achemos que tem pasta de dente para 5 meses, vê se eu estou mentindo.

Começa a apertar como manda o figurino: lá debaixo.

Vai espremendo devagarzinho, vai subindo, subindo e vai vendo se quando chega o primeiro indício de creme você já não eliminou 20 por cento do tubo só com oxigênio despejado na camada de ozônio do seu banheiro.

Já pensei se aquilo não seria para calibrar pneu.

Em viagem seria muito útil, tipo um 2 em 1.

Ou, se apertado com força, não ajuda na limpeza entre os dentes, dispensando até o fio dental.

Para soprar cílio atravancado no olho, para dar arrepio na nuca de quem a gente ama, ou só para desgrudar as folhas do jornal lido de manhã, fazendo a barba, em pé diante da pia.

Descobri que não.

É coisa que só se faz no Brasil, já que no Brasil a gente não faz nada.

É isso.

Ou é algum tributo tardio, quem sabe não é isso - não vá se emocionar, tá?

Juntaram a ideia da pasta que "não volta para o dentifrício" com a tecnologia do vento estocado.







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