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Vou dar porrada!

Atualizado: Mai 24

Quando emergiu do ostracismo, o atual ideólogo do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, expunha ideias como a de que a proibição de fumar em aviões surgiu de uma aliança entre o comunismo e a Organização Mundial da Saúde.


Ao defender essa e outras esquisitices, abusava do latim, revestindo-as com um verniz de erudição. Passou também a impregna-las de palavrões, tornando-se a caricata figura da ‘Dercy Gonçalves de Suspensórios’.


Como ele, Bolsonaro acha que a esquerda e a OMS estão por trás da pandemia, e também solta o verbo contra adversários políticos, inimigos imaginários e a imprensa.


Um déficit cognitivo o impede de enfeitar com o latinório do guru as estultices que diz. Assim, recorre à surrada ‘linguagem do povo’ tão explorada por Lula (a de Dilma era ininteligível) e a inovações protocolares.


Na agenda oficial e no clipping do Palácio do Planalto, o auê de 22 de abril é apresentado pomposamente como ‘Reunião do Conselho de Ministros’.


É como certos programas acadêmicos que ganham o rótulo de ‘Altos Estudos’. Existe, por exemplo, ‘Escola de Baixos Estudos’?


Que o palavreado seria de baixíssimo calão e que deveríamos tirar as crianças da sala, todos sabíamos. 'Quem não quiser ouvir palavrão, não assista', preveniu o presidente.


Porém, pior que a baixaria da linguagem foi a baixeza de princípios, proporcional à estatura do governo a que nosso futuro está entregue.


Fazendo o estilo Maçaranduba, personagem vivido pelo Casseta Claudio Manoel, Bolsonaro se comportou como o pitboy de muitos músculos e poucas luzes. Só que ao invés de desancar jornalistas e opositores, seus alvos desta vez foram seus parceiros de anabolizante e de cloroquina.


Por razões óbvias, livrou a cara de somente um: ‘Nunca tive problema com ele; zero problema com Paulo Guedes, agora os demais...’. Guedes é o Ulson Montanha (Bussunda) do presidente, o único brother de fé de Maçaranduba.


Já ‘os demais’, Bolsonaro tratou como o Saddam, o bull terrier adestrado para adquirir a personalidade truculenta do dono (ou do próprio Hussein?).


Ninguém, nem as senhoras presentes, esperava que o conselheiro-mor seguisse regras mínimas de etiqueta. Montanha fez coro à boca suja do chefe.


Diante da pasmaceira geral que tomou conta do carregado ambiente, só faltou ele se virar para Guedes e repetir a frase preferida de Maçaranduda: ‘O quê, Montanha!!?? Eu acho que estes caras estão duvidando da minha masculinidade. Vou dar porrada!!!’


A ameaça foi: façam qualquer porra para livrar minha família e o meu governo dos problemas em que nos enrascamos. Se não, irei demiti-los (ele usou o termo ‘interferir’, mas cabia o ’vou dar porrada’).


As respostas dos coadjuvantes foram mais bovinas que caninas.


Weintraub apresentou a solução mais pragmática e inteligente: prender os ministros do STF. De fato, aí quem poderia julgar Bolsonaro?


Damares propôs uma medida higienista: politico chamado de ‘estrume’ ou de ‘bosta’ pelo chefe vai em cana.


Treinado em emboscadas florestais, Ricardo Salles ladrou, ladino: vamos aproveitar e passar ‘uma boiada’ em ‘uma baciada’, referindo-se às canetadas incendiárias do chefe no escurinho da pandemia.


Por timidez ou intimidação, os outros calaram-se ou se limitaram a abanar o rabo. Moro não. Sequer estendeu a pata. Teich, empalhado, nem cachê de figurante mereceu.


Mais que palavrões, asneiras. Mais que descontrole emocional, burrice proverbial.


Ah, eu já ia esquecendo o principal. Evidentemente, a ordem de afastar o superintendente da Polícia Federal não foi motivada por risco à integridade física dos filhos e amigos do presidente.


Afinal, a turma do Maçaranduba se garante. Pelo menos enquanto o Montanha não se pirulitar da malhação.






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